A Noiva da Revolução faz dez anos

José Luciano Cerqueira
Mestre em História, professor e ex-diretor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE

Publicação: 13/01/2017 03:00

A primeira impressão causada pela leitura deste romance de Paulo Santos de Oliveira, que trata da Revolução Pernambucana de 1817, é eletrizante. Em parte, pela forma: um diário escrito por Domingos José Martins, seu líder máximo, e as notas posteriores da sua apaixonada esposa, Maria Teodora da Costa. Dois narradores de personalidades distintas, um no calor dos acontecimentos e a outra distante no tempo, trazendo depoimentos, conversas íntimas, análises da situação corrente e das posturas de diversos personagens. Mas isso não é tudo.

Como nas obras do chamado “grande romance histórico”, a exemplo de Salambô, de Flaubert; Guerra e Paz, de Tolstoi; Memórias de Adriano, de Marguerite Youcernar etc., os leitores mergulham facilmente no período retratado. Nesta, eles encontram uma reconstituição dos cenários geohistórico e cultural do Recife e seus arredores: o Capibaribe, a vegetação, o interior e o exterior das casas, lojas e igrejas, a culinária, as festas, as condições sanitárias (ou a falta delas), as vestimentas e a moda, assim como instantâneos do mundo do trabalho que permitem visualizar as classes sociais e sua estratificação. E, por fim, um resgate do modo de pensar/sentir da época, assim como a visão acurada de um governo revolucionário em ação.

É interessante ressaltar, ainda, “a alma feminina” do autor, ao se colocar na pele de uma mulher que viveu numa época distante. Como não lembrar Marguerite Yourcenar, depondo na primeira pessoa como Adriano; ou Tolstoi, nas vozes de seus personagens femininos; ou as canções de Chico Buarque? Não é fácil obter esse resultado, em termos de criação literária.

Este livro também reabre uma velha discussão sobre os campos do historiador e o do romancista, já levantada por Luciano de Samosata (125/181) em Como se Deve Escrever a História. Entre a liberdade do artista (ákratos eleutheria) e o rigor do historiador. No caso, o grande historiador Denis Bernardes foi consultado e lhe deu aval, garantindo, se não a verdade absoluta, pelo menos que o espírito da História não foi falseado.

Por fim, é mister elogiar o que A Noiva da Revolução representa como exemplo de “História Aberta”, voltada não para o culto ao passado, mas que ilumina e reforça a consciência contemporânea. E pela técnica capaz de tirar o fôlego, de criar empatia com os personagens como se os leitores participassem de suas vidas.

Sem essa característica, aliás, as obras morrem para o público. Mas esta, que hoje completa dez anos de lançamento, viverá para sempre.

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