Mário Soares, o pai da democracia portuguesa

Luiz Henrique Diniz Araujo
Procurador Federal. Membro da Comissão de Combate à Corrupção da OAB/PE. Doutor em Direito

Publicação: 12/01/2017 03:00

No ano de 1996, eu e o amigo Julio Dubeux tivemos o privilégio de entrevistar, para o jornal O Papiro, que editávamos juntamente com outros amigos do movimento estudantil na Faculdade de Direito do Recife, o político português Mário Soares. Eis que, mais de vinte anos depois, no dia 7 de janeiro de 2017, chega-nos a notícia da morte daquele que entrou para a história como o “pai da democracia portuguesa”.

Soares deu seus primeiros passos na política em 1945. Naquele ano, o Partido Comunista Português (PCP) criou uma organização para a juventude, da qual era a principal liderança. Um ano após, é preso pela primeira vez, o que aconteceria por mais doze vezes. Com o passar dos anos, Soares se afasta paulatinamente do PCP, até a ruptura em 1951. A partir de então, denuncia sem cessar o socialismo totalitário e, em 1964, funda Ação Socialista Portuguesa (ASP).

Deportado em março de 1968 a São Tomé, por se opor à guerra colonialista portuguesa, é beneficiado por um indulto em outubro do mesmo ano. Apesar do benefício que recebera, Soares não se fez de cúmplice do governo, tendo, ao contrário, denunciado os abusos aos direitos humanos cometidos em Portugal, auto-exilando-se em Paris por quatro anos. Nesse período, sua atuação política internacional se intensifica, culminando com a fundação do Partido Socialista Português, em 19 de abril de 1973. Ao eclodir a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, pondo fim à ditadura salazarista em Portugal, Soares retorna a Lisboa aclamado pelas massas.

Foi franco vencedor das eleições para a Assembleia Constituinte de 25 de abril de 1975. Em 25 de abril de 1976, o PS ganha as eleições legislativas, tornando-se Soares dirigente do primeiro governo constitucional de Portugal após o salazarismo, tendo renovado o mandato. Foi, nesse período, o responsável por colocar o à época combalido Portugal na Comunidade Europeia. Após, elegeu-se presidente da República em 1986, tendo sido reeleito em 1991 no primeiro turno, cargo que ocupou até 1996. Por fim, tornou-se deputado no Parlamento Europeu.

É simbólico ressaltar duas características de Soares, essenciais para a boa política: a coragem para fazer sacrifícios, inclusive pessoais (exílios e prisões são os maiores exemplos), bem como a capacidade de governar de forma abrangente, não apenas para si ou seu grupo. Essa simbologia se torna ainda mais digna de lembrança quando faltam lideranças no mundo e no Brasil. Nenhuma das potências europeias consegue assumir um protagonismo político de maior relevância. Os Estados Unidos passam pelas incertezas do que será a era Trump, com muito maus presságios. A China, por diversas razões, não é capaz de assumir uma liderança política mundial. A Índia, que hoje tem um primeiro ministro aclamado, evidentemente não terá a estatura para tal liderança. Tristemente, a figura controversa de Putin parece despertar um fascínio preocupante. No Brasil, igualmente, os líderes desapareceram. O governo do presidente Temer luta para se legitimar, sem sucesso, maculado pelo vício de origem, denúncias de corrupção crescentes e falta de capacidade de congregar os anseios populares. Em momentos como este devem nos inspirar personalidades do quilate de Mário Soares.

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