Os gênios não morrem, Bauman está vivo!

João Paulo S. de Siqueira
Advogado, mestre em consumo e desenvolvimento social, professor e escritor

Publicação: 12/01/2017 03:00

Há alguns dias o mundo perdeu um de seus maiores pensadores contemporâneos, o polonês Zygmunt Bauman, e digo com tranquilidade o mundo em seu sentido “lato” e não somente o mundo acadêmico ou literário, pois ele escreveu sobre a sociedade de maneira ampla, lúcida e real, pensou e escreveu sobre todos nós.

Suas principais obras e teorias tratam da nossa sociedade, do mundo palpável, e talvez este tenha sido um de seus maiores legados. Não abordava utopias ou parâmetros axiológicos do dever ser, como poucos, expunha com clareza suas teorias da realidade e frente à realidade. Atingiu o primor literário que poucos alcançaram, conseguia ser erudito e popular, rebuscado e simplório, numa linha de raciocínio que encantava seus leitores.

Foi um visionário e vanguardista, tratou ainda na década de 60 sobre temas que hoje são debatidos e discutidos de maneira dilemática em congressos acadêmicos e salas de aula,  o que mostra a vastidão, relevância e atemporalidade de sua obra e do seu patrimônio literário.

O sociólogo de formação não discutia apenas sobre temas clássicos da sociologia, assumia a postura de forasteiro científico, e aventurava-se com maestria e autoridade por temas diversos, deixando legados eternos nos estudos do consumo, da psicologia, da filosofia e da história, principalmente por suas ideias, mas também pela sutileza e leveza com que expunha seus pensamentos, o processo semiótico de construção de suas teorias e raciocínios era magistral, pois tinha o dom de tratar de temas profundos e dialéticos com uma simplicidade inigualável.

Mais do que simplesmente suscitar questões e questionamentos, ele procurava dar respostas e definições aos fenômenos que estudava, e seu discurso alcançava sua missão, pois convencia seus leitores, mesmo na árdua tarefa de construir uma definição, ele mostrava-se genial, pois de maneira suave e serena nos apresentou os significados de transitoriedade, fluidez, obsolescência, consumismo e sobretudo de liquidez.

E talvez essa terminologia, reiteradamente utilizada por ele, seja uma de suas maiores marcas, pois consegue adequá-la a incontáveis elementos e situações: ao amor, à sociedade, à modernidade, aos valores e instituições contemporâneos e também a cada um de nós, pois somos volúveis, mutáveis e líquidos.

Tenho orgulho de ser um leitor assíduo de suas obras, que são leituras de referência nos estudos de plurais áreas do conhecimento, mas escrevo esse texto não somente como um estudioso, mas principalmente como um admirador e discípulo deste grande pensador. Poderia elencar uma série de adjetivos, mas entendo que chamá-lo de pensador, em uma sociedade líquida onde, lamentavelmente, poucos pensam e refletem, é uma forma de homenageá-lo.

O ano de 2017 começou nos tirando o velho Bauman, o físico não está mais presente, mas seu legado estará sempre vivo, dinâmico e atual. Foi vencedor de inúmeros prêmios, mas talvez sua maior virtude tenha sido a de explicar nossa sociedade de uma maneira que poucos conseguiram, obrigado Bauman! 

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.