EDITORIAL » 'Nós podemos'

Publicação: 12/01/2017 03:00

Depois de oito ano de mandato, Barack Obama está de mudança. Entregará as chaves da Casa Branca a Donald Trump, presidente eleito dos EUA, no próximo dia 20. Primeiro negro a comandar a nação mais rica e poderosa, ele se manteve na Presidência dos Estados Unidos como homem do povo. Foi solidário aos norte-americanos em todos os conflitos interétnicos e ataques terroristas. Usou e abusou das redes sociais para prestar contas à sociedade, anunciar decisões e sondar a opinião pública sobre medidas que cogitava implementar.

Na despedida da Presidência dos Estados Unidos, Obama dividiu com os norte-americanos as conquistas alcançadas durante dois mandatos, com destaque para a redução do desemprego, o crescimento da economia, o reconhecimento da união homoafetiva e a garantia do seguro-saúde para mais de 20 milhões de pessoas — meta aquém da originalmente pretendida para o benefício, que levou em conta o modelo do SUS do Brasil como inspirador do Obamacare. Cerca de 8,6% (27,5 milhões) da população não têm nenhuma cobertura.

O presidente exortou os cidadãos para participarem mais da vida política do país a fim de promoverem as mudanças que almejam. Estimulou a sociedade a lutar contra eventuais retrocessos, que comprometam a democracia. “Nós podemos. Nós fizemos”, disse Obama. No entanto, não conseguiu cumprir todas as promessas feitas em 20 de janeiro de 2009, quando iniciou o primeiro governo. Persistem a prisão de Guantánamo, em Cuba, e a venda sem controle rigoroso de armas de fogo em todo o país.

A resistência dos republicanos, que formam maioria no Congresso, não permitiu também que efetivamente fosse suspenso o embargo econômico imposto, havia meio século, à ilha dos irmãos Castros. Mas o reatamento das relações foi momento histórico e significativo à recuperação econômica do Estado cubano. No campo internacional, Obama conseguiu ainda fechar o acordo nuclear com o Irã, em 2015, tema delicado e de alta importância para o equilíbrio de forças no Oriente Médio, uma das regiões mais conflagradas do planeta. Cumpriu o objetivo de eliminar Osama Bin Laden, líder da organização terrorista Al-Qaeda, autora do ataque contra o World Trade Center, em Nova York, em 11 de setembro de 2001.

Não enviou soldados norte-americanos para os campos de guerras envolvendo aliados, mas autorizou o uso da tecnologia — drones, mísseis teleguiados, aviões de bombardeio sem pilotos e forneceu armas — para as zonas de conflito. O número de civis mortos por essas estratégias tem contabilidade controvertida. Em território americano, ele ficou reconhecido como o presidente que mais deportou estrangeiros — 2,5 milhões —, entre 2009 e 2015, com foco naqueles com antecedentes criminais.

Entre acertos e erros, Obama, prêmio Nobel da Paz 2009, deixa exemplos de como agir no regime democrático, no qual forças díspares lutam por mais espaços. Guiou-se pelos interesses dos mais desvalidos, sem ignorar a classe média, os riscos e os setores produtivos. Levou ao debate público a necessidade de desenvolvimento com sustentabilidade e foi um dos artífices na construção do Acordo de Paris, para o enfrentamento das mudanças climáticas. O seu protagonismo foi um recado simples ao mundo: miséria, falta de educação e manutenção de modelos arcaicos de produção são incompatíveis com o desenvolvimento sustentável. Na democracia, o caminho a seguir é determinado pela sociedade, não por interesses de grupos minoritários.

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