Saudades das cartas de amor

Luciana Grassano Melo
Professora de Direito da UFPE

Publicação: 11/01/2017 03:00

Comecei o ano de 2017 com saudades das cartas de amor. Aquelas mesmas que Fernando Pessoa dizia que não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.

Comecei o ano de 2017 com saudades da boa música, e de quando os réveillons eram um passeio por todos os nossos melhores ritmos.

Rompi o ano numa praia, entre a família e amigos, depois de um lindo dia de sol, mar e piscina. O que observei é que a cada ano que passa o espetáculo de fogos melhora, mas a orquestra toca cada vez piores músicas, e todos adoram! Ou seja, comecei o ano constatando que também sou minoria na música.

A poesia que escutei na virada foi: “A gente briga e separa / A gente separa e volta / Eu levo tapa na cara / Eu que apanho e ela chora” ou  “Eu vou dar virote, eu vou dar virote / Eu sou patrão tô estourado e essa vida é pra quem pode / Eu vou dar virote, eu vou dar virote / E pode chamar o Samu / Que hoje eu vou tomar glicose”.

Eu tenho uma grande capacidade de abstrair-me, como quem sonha acordada, mas com essa música é impossível. Tive a ideia de olhar as fotos publicadas no Instagram, com a esperança de ver coisas belas, que nada... Logo vi a notícia do atirador que invadiu a boate em Istambul e matou 39 pessoas, e a tragédia de Campinas: um homem que mata a ex-mulher, o filho, mais 10 pessoas e em seguida se suicida.

No dia primeiro, eu li nos jornais que ele deixou uma carta ao filho que, entretanto, matou antes de suicidar-se. Depois que li essa carta é que eu tive saudades das cartas de amor!

E imaginei o que escreveria para o meu filho, se soubesse que morreria... E lembrei-me da frase linda escrita por Tia Luizinha para meu primo Jean, seu filho mais jovem: “Sê um homem de bem!”.

Esse pai assassino escreveu para o filho: “No Brasil, crianças adquirem microcefalia e morrem por corrupção, (...) muitas pessoas pobres morrem no chão de hospitais para manter políticos na riqueza e poder! Eu morro por justiça, dignidade, honra e pelo meu direito de ser pai! A vadia foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos, agora os pais quem irão se inspirar e acabar com as famílias das vadias”.

Aí só existe muito ódio. E o mais grave é que encontramos todo esse ódio facilmente por aí.

Eu acho que precisamos ensinar os nossos filhos a escreverem cartas de amor. Quem sabe se procurando ensiná-los a escrever cartas de amor não voltamos todos nós a escrevermos cartas de amor, também ... De repente, espalhando cartas ridículas, mas de amor, por aí, diminuímos um pouco esse ódio reinante e voltamos também a cantar o amor. Em 2017, precisamos com urgência voltar a cantar o amor e a escrever cartas ridículas de amor! Se não conseguirmos diminuir o ódio, pelo menos sofisticaremos as nossas músicas e valorizaremos as nossas relações afetivas.

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