Os novos Herodes

Terezinha Nunes
Jornalista e presidente estadual do PSDB-Mulher

Publicação: 11/01/2017 03:00

É conhecida na história da humanidade e estão registradas em detalhes na Bíblia a perseguição e morte de recém-nascidos, por ordem do rei Herodes, da Judeia, logo depois do nascimento de Cristo.

Herodes teria a intenção de matar o menino Jesus, com receio de que este viesse a tomar-lhe o trono, e acabou mandando executar milhares de bebês. O episódio ficou registrado como o primeiro caso de infanticídio de que se tem notícia.

Este final de ano, com base no relato bíblico, o papa Francisco alertou a humanidade para que o chamou de “novos Herodes”. Denunciou como tal os responsáveis pelo abuso contra as crianças em todo mundo, expondo-as à fome, às guerras, aos crimes sexuais, de tráfico humano e às perseguições de toda natureza.

Na verdade, o ano de 2016, que não deixou saudades, foi pródigo de exemplos deste tipo  com cenas capazes de chocar o mais gélido dos mortais.

Permanece na memória de todos a imagem do pequeno Aylan Kurdi, de apenas 3 anos, um menino sírio encontrado morto na areia da praia de Kós, na Turquia, vítima do naufrágio do barco lotado de refugiados que transportava sua família. A imagem do pequeno correu o mundo e até hoje causa comoção onde é exposta.

O drama de Aylan, porém, infelizmente, não foi o único. Centenas de milhares de crianças morreram como ele nos barcos lotados que singraram os mares carregando pessoas expulsas de suas terras por guerras, intolerância e até por falta do que comer.

Os campos de refugiados na Europa continuam a exibir o drama de crianças sem escola, em abrigos precários, ou varridas, juntos com os pais, de um país para outro. Também a guerra da Síria foi pródiga de imagens chocantes de crianças vítimas e perseguidas em 2016.

Ora mortas sob escombros, ora resgatadas sob o concreto derrubado pelas bombas, com os rostos cheios de barro e sangue, ora usando a Internet para pedir socorro ao mundo. Um problema sem fim.

Fora isso, 2016 exibiu ainda crianças utilizados pelo Estado Islâmico para matar adultos e outras crianças ou para se explodir com uso de cinturões de bomba, como fazem os aliciados mais velhos.

A fome na África, que continua matando milhões de inocentes meninos e meninas de inanição, é tão gritante quanto todos os demais episódios mas parece ter ficado em segundo plano diante do crescimento da barbárie em mundos mais civilizados.

Caberia, finalmente, a 2016 tomar conhecimento, nas palavras da secretária da ONU sobre a violência contra a criança, Marta Santos Pais, de uma lancinante realidade: a de que 1 bilhão de crianças nos dias de hoje – metade dos menores existentes no mundo – sofre agressões físicas, psicológicas ou sexuais.

No Brasil, o Ministério da Saúde revelou que o abuso sexual é hoje o segundo maior motivo de violência contra a criança, perdendo somente para a negligência e o abandono. É é porque não temos guerras, campos de refugiados ou casos de fome como os da África.

Onde o mundo vai chegar diante de toda essa barbárie que vitima menores inocentes? É difícil saber. Os novos Herodes, porém, estão a olhos vistos. Só não vê quem não quer. E ameaçam continuar espalhando terror em 2017.

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