Mário Rodrigues: 'Você pode negar bom dia'

Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

Publicação: 09/01/2017 03:00

O escritor pernambucano Luís Jardim – também ilustrador muito admirado – costumava fazer ponto na Livraria José Olympio, no Rio de Janeiro -, onde intelectuais se reuniam, diariamente. Num desses dias, entrou apressado e não ouviu quando um admirador lhe deu bom dia e continuou andando, em silêncio. Na saída, o admirador queixou-se: “Meu amigo, então eu lhe dou bom dia e você não responde”. José Lins, ao lado, puxou o escritor pelo braço: “Não se preocupe com isso, Luís. Um homem que escreveu Confissões do tio Gonzaga pode negar bom dia”. O romance de Luís Jardim fora publicado há dias e era elogiado pela crítica. Não só elogiado, mas exaltado.

Não concordo com a atitude de Zé Lins, mas lembro o episódio para destacar o lançamento recente do livro Receita para se fazer um monstro, do pernambucano de Garanhuns – Luís Jardim também era de Garanhuns – Mário Rodrigues, tão bem realizado e de uma força incomum que o colocaria na posição antipática de negar bom dia. Não concordo porque o leitor deve ser sempre tratado com o máximo de cortesia, com elegância e com distinção. Há escritores que se consideram geniais e basta ganhar um prêmio ou até uma menção honrosa – menção honrosa não é prêmio, é apenas uma menção, os premiados são outros, você foi apenas mencionado – para negar bom dia às pessoas. Sentem-se superiores a todos.

O livro de contos de Mário Rodrigues é tão bom que ganhou o Prêmio Sesc de Literatura, um dos mais importantes da literatura brasileira, a concorrer com autores de todo o país, em número superior a mil inscritos, na maioria das vezes. Mário usa várias técnicas literárias, entre elas personagem inominado e a técnica do romance desmontável, como ocorre, por exemplo, com Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

O romance desmontável significa que o leitor pode começar a ler por qualquer capítulo, sem confundir ou atravessar o enredo. O personagem inominado também foi usado por Graciliano no mesmo livro, a exemplo do menino mais velho e o menino mais novo. Mário acrescenta e revigora-o com um texto rico em sugestões e em motivos. E vai mais adiante, assim, escrevendo um monólogo interior recorrendo ao discurso interno, o que torna o livro ainda mais rico e mais belo. Aliás, este é o arsenal técnico de um livro surpreendente, até porque não é nada convencional. Não devemos nunca mais esquecer este nome: Mário Rodrigues é um nome a ser homenageado pela literatura pernambucana.

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