EDITORIAL » Soares, um português que amou a liberdade

Publicação: 09/01/2017 03:00

Não se esquece um visionário. Ou melhor, não se pode. No caso do ex-presidente português e ex-primeiro ministro, Mário Soares, que morreu no último sábado, aos 92 anos, é impossível não perceber os ares de modernidade no país sem lembrar que ele queria Portugal exatamente assim, com feições de futuro, longe de dúvidas sobre a vocação europeia, crença reiterada em várias entrevistas concedidas ao longo dos últimos trinta anos. Filho de político e fundador do Partido Socialista (1973), cresceu vendo ideias se transformar em luta e ele mesmo tomou para si causas importantes como ver encerrada a ditadura fascista de António de Oliveira Salazar. Não estranha que tenha sido preso 12 vezes pela polícia política do país, a PIDE, deportado para São Tomé e Príncipe, em 1968, e dois anos depois, exilado na França.

Além de europeísta, pragmático. Muito depois de virada a página dos exílios e já ministro dos Negócios Estrangeiros, Soares deu carga total no processo de descolonização das colônias portuguesas na África e, em 1976, como primeiro-ministro, reintegrou 500 mil portugueses, os “retornados”, que fugiram daquelas regiões já independentes. Mas o sonho maior era mesmo acabar com o isolamento do país no continente e aproximá-lo do desenvolvimento das nações da Europa central. Em 1977, apressou-se em pedir a adesão de Portugal à Comunidade Econômica Europeia e assinou-a em junho de 1985. Um ano depois, assumia seu primeiro mandato como presidente e cinco mais tarde, o segundo. Não conseguiu ocupar o cargo pela terceira vez, em 2006, ocasião em que obteve apenas 14,3% dos votos. Estava com 81 anos.

Desde então, foi-se afastando das atividades públicas, mas não do gosto pela política. A língua afiada não poupava decisões que considerava equivocadas e, consequentemente, quem respondia pelo comando do país. Inspirado no boicote dos argentinos à dívida contraída com o FMI, queria que Portugal fizesse o mesmo como forma de enfrentar a crise econômica cujo auge se deu em 2008. Embora o tempo, corrosivo como é, se encarregue de diminuir as cores das conquistas, o país não esquece que deve a ele a consolidação de sua democracia e a instituição de benefícios como a seguridade social e a escola pública acessível a todos. Para o povo, conquistas deste nível não têm preço, como não tinha a decisão de Mário Soares de terminar a vida como uma voz contra o autoritarismo, sempre a favor da liberdade.

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