Sociedade desumana

Roque de Brito Alves
Professor e advogado

Publicação: 07/01/2017 03:00

1 – As estatísticas comprovam que atualmente a população mundial concentra-se nas grandes cidades, na área urbana e não na rural, orno ocorria em passado recente, exemplificando-se com o nosso País, com cerca e 73% vivendo nas metrópoles, fazendo com que a criminalidade contemporânea seja urbana e produto de crime organizado ou mesmo já globalizado.

2 – Embora seja um paradoxo, quanto maior a multidão, maior a solidão do ser humano, sobretudo na dramática luta diária pela sobrevivência em uma sociedade de consumo, com as suas exigências materiais para uma vida melhor. Sociedade que proporciona, por uma parte, um maior conforto material de existência por sua sofisticada tecnologia porém, ao mesmo tempo, produz ou implica em uma desumanização que humilha, ofende, discrimina, nega a dignidade do homem, tornando-o um simples número em um mercado global dominado pelo poder econômico ou financeiro e onde os pobres de bens materiais não têm vez e nem voz.

3 – Em verdade, na sociedade de hoje o homem não somente perdeu o contato ou está a destruir a natureza (que se vinga terrivelmente como nas últimas tragédias naturais ocorridas no Mundo) como – o que é mais grave – não busca, não encontra o seu próximo, o seu irmão pois este é julgado como um seu inimigo ou um competidor em tudo na vida. O próximo é visto como um obstáculo a ser vencido ou superado ou então (o que é mais lamentável) como um desconhecido, alguém que não existe ou que lhe é indiferente, fazendo renascer na sociedade moderna a velha tese de que "o homem é o lobo do homem". Tal aspecto de desumanização é mais profundo com o atual fenômeno de desagregação ou mesmo dissolução da família, fenômeno mortal para a vida afetiva individual e para o seu devido ajustamento social.

4 – A estrutura da sociedade de nossos dias torna o ser humano cada vez mais inseguro, angustiado, sufocado, escravo, coagido, reduzido à ínfima condição de simples número ou de um anônimo no meio da grande multidão das metrópoles, geralmente excluído de qualquer solidariedade. Quem está ou sente-se inseguro, frustrado, ressentido por não poder atender a todas as exigências materiais de uma sociedade de consumo, não está em paz consigo mesmo e portanto não estará em paz com o seu vizinho, indo assim facilmente ao choque de interesses, à violência, ao crime como o efeito mais comum de tal situação. Situação também geradora do aumento da depressão, causadora, por sua vez, do grande aumento do suicídio atualmente no Mundo, inclusive de adolescentes.

5 – Sem dúvida alguma, particularmente nas metrópoles de milhões de habitantes, a paisagem humana de hoje é muito desoladora por ser cada vez maior o número dos solitários, dos que se sentem sós, diminuídos, rejeitados, esquecidos, sem amigos verdadeiros, embora os falsos e os apenas "conhecidos" sejam muitos. Apesar de residirem em arranha-céu, muitos nem sequer recebem um "bom dia" dos vizinhos mesmo com os encontros diários nos elevadores, pois todos estão sempre muito apressados, "estressados" na busca permanente do "sucesso" na vida, inclusive à custa do desconhecimento ou da derrota do seu próximo. A amizade leal e a solidariedade necessária são geralmente substituídas pela inveja e pela maledicência e as relações sociais são plenas de hipocrisia, de dissimulação, de uso de meios antiéticos.

6 – Nos milhares de prédios ou de apartamentos justapostos, unidos, ninguém  conhece ninguém, o semelhante,  o outro é sempre algo julgado abstrato, ignorando-se ou desprezando-se  o mandamento cristão de “amar o  próximo como a si mesmo”. somente quem tem  alguma parcela de poder, sobretudo o político, é que vive na ilusão de ter amigos pois os mesmos – verdadeiramente simples oportunistas ou bajuladores – desaparecem quando do seu ostracismo. Assim sendo, sem nenhum  pessimismo e perante uma realidade  inegável, a sociedade atual é,  por sua própria natureza, egoísta, indiferente, competitiva, aniquiladora de pessoas, sem nenhum calor humano,  principalmente em nossos dias onde o mundo é cada vez mais “virtual” e não “social”.

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