Pernambucanos mais sofredores

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois, presidente da Datamétrica e do Diario de Pernambuco

Publicação: 07/01/2017 03:00

A crise tem sido mais forte em Pernambuco do que no Brasil e mesmo no Nordeste. Uma evidência disso é que a massa salarial total no estado representava em média 3,37% da brasileira em 2012 e 2013 e esse percentual caiu para 2,93% nos quatro últimos trimestres (2015:4 a 2016:3) com dados disponíveis na PNAD contínua (IBGE). Em relação ao Nordeste, esses números são 20,7% e 18,5%, respectivamente. O fato de a crise vir mais forte sobre a formação de capital e Pernambuco ter estado com proporcionalmente mais recursos alocados para investimentos explica boa parte desse fenômeno. Além disso, a maior relevância do setor público em Pernambuco e no Nordeste é uma das razões desse maior encolhimento dessas economias quando se compara ao desempenho nacional, por ter a crise origem nos governos e ter sido mais forte neles, mesmo que a massa salarial dos funcionários públicos tenha sido protegida pelas restrições à demissão. A queda da participação das receitas do governo central de mais de 22% em 2012 e 2013 para pouco mais de 20% do PIB nos quatro últimos trimestres disponíveis (2015:4 a 2016:3) atestam esse maior sofrimento do setor público.

Há também diferenças no impacto da crise nos diversos segmentos sociais. Alguns são mais impactados do que outros. A maior proteção da renda e do emprego dos funcionários públicos fez com que a carga maior de perdas tivesse sido entre os agentes privados. Em Pernambuco particularmente a proporção da massa salarial local para a brasileira encolheu no segundo período mencionado acima (2015:4 a 2016:3) para 87% do que ela foi no primeiro período (2012:1 a 2013:4). Entre os empregadores e empregados do setor privado, particularmente, as reduções nessas proporções foram para 83% e 85% do valor inicial, respectivamente. Ou seja, há mais sofrimento entre os agentes privados. Embora a crise tenha origem no setor público, ela se desencadeia pela sociedade a partir de não pagamentos ou suspensão de serviços contratados pelo setor público. Isso gera perdas para as empresas fornecedoras de bens e serviços aos governos, que daí passam para seus fornecedores e funcionários e a crise se alastra. Ou seja, os governos fazem a lambança e os agentes privados pagam a maior parte da conta. Esses números mostram que a expansão do crédito do BNDES e o novo Refis, recentemente anunciados pelo governo, são políticas importantes de combate à crise e seus efeitos. As medidas que permitem a renegociação de dívidas fiscais, contudo, foram muito tímidas para as reais necessidades da economia brasileira hoje.

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