O papel transformador dos prefeitos

Roberto Montezuma
Presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU/PE)

Publicação: 06/01/2017 03:00

Reeleitos ou estreantes, os prefeitos que assumem seus mandatos neste mês de janeiro encaram um desafio imenso, ainda mais estratégico que aquele apresentado nas gestões anteriores. Não só pela crise política e moral que fragiliza a credibilidade da classe como um todo, nem apenas pela crise econômica que afeta as contas públicas e resulta num colapso social, tampouco pelas obras inacabadas que configuram verdadeiros esqueletos urbanos espalhados por todo o país. O xis da questão está em se reconhecer como líder na urgente transformação do pensar e agir, com visão de futuro, nas cidades brasileiras.

A cidade é o mais complexo artefato inventado pelo homem e é a bola da vez: a partir do século XXI mais da metade da população mundial passou a ser urbana e existe uma perspectiva de que até 2050 esse percentual ultrapasse a marca dos 70%. Ela é espaço de conflitos, mas, sobretudo, suporte físico e campo fértil para as grandes oportunidades humanas. Foi na Polis grega que nasceu a civilização, a democracia, a cultura, em resumo: política com seu projeto de cidade. É nesse território físico e simbólico que iremos encontrar a chave para superar essa grande crise de valores, instituições, ideias, lideranças.

Desde as manifestações de rua de 2013, a sociedade brasileira vem apontando mais claramente para o esgotamento de um modelo de cidade vigente até então. Clama-se por qualidade de vida, sustentabilidade, habitabilidade, mobilidade entre outros desafios que só podem ser conquistados a partir do retorno ao planejamento de longo prazo, único caminho seguro para o desenvolvimento social, econômico e urbanístico. Urge, portanto, o surgimento do estadista, o líder que tem visão de longo prazo, estrutura equipes de planejamento urbano, desenvolve o plano urbanístico de desenvolvimento e executa sua primeira etapa.

Esse estadista não está sozinho. Ao elaborar a Nova Agenda Urbana no último mês de outubro, a ONU estabeleceu dezessete objetivos que servem de diretrizes nesse cenário. A COP21, que obteve a adesão do Brasil, também definiu metas de qualidade ambiental a serem perseguidas nos próximos anos. Já a Carta Compromisso do CAU dá suporte operacional à nova governança, apontando para uma visão estratégica da metrópole – aquela cidade que não cabe mais em seu município – e iluminando a necessidade de planos urbanísticos não mais genéricos, mas sob medida, empoderando e envolvendo o cidadão, a quem cabe monitorar e garantir que as metas de longo prazo sejam cumpridas pelos gestores em seus respectivos mandatos.

O planejamento de longo prazo já comprovou ser o caminho para o desenvolvimento das cidades que o assumiram como diretriz essencial, a exemplo de Barcelona na Europa, Singapura na Ásia e, mais recentemente, Medellín e Bogotá na América do Sul. Temos no horizonte, um farol que simultaneamente ilumina e transforma o político em estadista, os planejadores em profissionais de estado, os especuladores em empreendedores urbanos e os habitantes em cidadãos.

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