Com emoção, transplantaremos uma colombiana

Cláudio Lacerda
Cirurgião e professor da UPE e da Uninassau

Publicação: 06/01/2017 03:00

Tenho dito com alguma frequência que transplantar fígado é uma das atividades mais fascinantes, gratificantes e emocionantes que existem. No dia a dia, recebemos brasileiros de vários estados, de todas as idades e classes sociais, gravemente enfermos, com seus fígados destruídos por diferentes causas, debilitados sistemicamente, em geral com expectativa de vida de poucos meses. Tendo no transplante sua única chance, entram em nossa lista de espera para lutar contra o tempo, na esperança de serem contemplados com o novo órgão, antes de uma complicação fatal que pode surgir a qualquer momento. É um tudo ou nada que em muitas situações reveste-se de imensa dramaticidade.

No ano passado, contei os casos mais marcantes que pude vivenciar e documentar ao longo desses últimos dezesseis anos de luta, no livro Acorde o governador: Histórias de Superação e Vidas em 1000 Transplantes de Fígado no Nordeste do Brasil. A obra, que tem a colaboração de Nivaldo Brayner, já vai com mais de dois mil exemplares vendidos, levando muita gente às lágrimas, provavelmente relatará, na próxima edição, o caso de uma colombiana que há uma semana, entrou em contato conosco em busca de ajuda.

Aos trinta anos de idade, padece de uma doença hepática em estágio avançado, chamada Colangite Esclerosante Primária. Se não transplantada nos próximos meses, provavelmente não sobreviverá por muito tempo e deverá viver seus últimos dias com muito sofrimento.

Quando fui perguntado, por um parente da jovem, se ela poderia viajar para entrar na nossa lista, aqui no Recife, confesso que, ainda impactado pelas belíssimas manifestações de solidariedade do seu povo com os brasileiros vítimas do recente acidente aéreo de Medellin, respondi instintivamente que sim e que eles seriam muito bem- vindos. Desejava retribuir, ainda que modestamente, todo aquele afeto e todo aquele carinho latente que aquela nação nutre pelo nosso povo e que fez com que a Colômbia fosse eleita o “país do ano”, como assinalado em artigo publicado há poucos dias nesta coluna.

Todavia, no momento em que percebi que tinha causado uma imensa alegria entre eles, “caiu a ficha” e fiquei preocupado, pois nem sequer tivera o cuidado de consultar a legislação brasileira no que tange a transplantes em estrangeiros sem residência fixa, que, aliás, não podem ser feitos exceto entre vivos e em hospital privado, portanto, com elevadíssimo custo. Felizmente, para meu alívio, fui informado logo em seguida de que a paciente era casada com um brasileiro, podendo obter cidadania rapidamente.

Eles estão vindo, e com eles, quem sabe, a esperança de novos tempos na relação do nosso povo com essa nação siamesa, como quer Maurício Rands.

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