Safra cajus começando

José Paulo Cavalcanti Filho
Jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 06/01/2017 03:00

O melhor, nessa delação da Odebrecht, são os apelidos. Ou codinomes, se preferirem. Cada político tinha o seu, na hora de receber grana suja. Mesada, se preferirem. Alguns são curiosos: Angorá, Bobão, Boca Mole, Casa de Doido, Duvidoso, Encostado, Feia, Kibe, Muito Feia, Nervosinho, Ovo, Passivo, Todo Feio, Viagra. O Chefão, em outras delações, já foi Brahma, Brazilian Official 1, LL Barbudo e Comandante da ORCRIM. Agora é só Amigo (Friend). Virou íntimo. Só mesmo rindo.

Curioso é que, ao ouvi-los, a memória lembra histórias do passado. Não é grande coisa, bem sei. Quando era criança/ Vivi, sem saber,/ Só para hoje ter/ Aquela lembrança, disse Pessoa (em poema, sem título, de 2/10/1933). São só lembranças. Por exemplo, tome-se o apelido do senador Romero Jucá. Que é caju. Meio óbvio. Mas um bom trocadilho – Ju-cá, Ca-ju. Volto no tempo.

Sílvio Caldas era, então, o maior sucesso do rádio brasileiro. Acabara de assinar um contrato monumental (para os padrões da época) com a Rádio Nacional. E veio visitar amigos no Recife. Problema é que a cachaça, por aqui, era quente. Os tira-gostos, de outro mundo. Entre eles caju, claro. E a conversa, boa demais. Resumo da ópera, foi ficando. Na véspera da estreia de seu programa, nada de Sílvio Caldas no Rio. Os diretores da rádio, desesperados, ligaram para Esmaragdo Marroquin. Editor do Jornal do Commercio. Pedindo ajuda. Para localizar o cantor.

Esmaragdo determinou, a todos os jornalistas disponíveis na redação, que procurassem nos bares. Onde, imaginava, estaria o seresteiro. Cria fama e deita-te na cama. Um deles foi Amélio (com esse nome foi batizado) Cabral. O homem de verdade, sempre assim o chamava – lembrando a Amélia de Mário Lago e Ataulfo Alves, que era a mulher de verdade. Para fins artísticos, acabou Rui Cabral. Acontece.

Rui foi designado para ir ao Maxime. No Pina. E, naquele bar, afinal encontrou Sílvio Caldas. Mais pra-lá do que pra-cá. Deu seu recado, a Rádio Nacional o estava convocando. Ele precisaria viajar. Sílvio Caldas pegou um guardanapo de papel, escreveu algo nele, deu dinheiro a Rui (muito mais do que seria razoável) e pediu que passasse um telegrama.

No papel, endereçado aos diretores da rádio, Rui leu: Impossível partir. Safra cajus começando. Cajus, como os de Romero Jucá. Mas diferentes deles, pela inocência. Voltou para a redação e entregou dito guardanapo a Esmaragdo. Uma equipe foi mobilizada para conduzir, gentilmente (nem tanto), o cantor até o aeroporto. O puseram num avião Constelation da Panair (ai de mim, que a meninada de hoje nem sabe o que é isso). Chegou ao Rio dormindo, embalado por quilos de álcool. E foi facilmente conduzido, por funcionários da rádio, para sua casa. Dia seguinte estreou. Sucesso retumbante. Com saudades dos cajus daqui, claro.

O ano de 2016 foi duro. Para todos nós, brasileiros. O que dá pra rir/ Dá pra chorar, palavras de Billy Blanco (“Canto Chorado”). Problema é que, nesse ano que passou, quase não deu para rir. Esperamos, então, que tudo melhore a partir de agora. Que haja cajus para todos. E alegria também, pelo menos um pouco. Assim, preferi começar o novo ano com uma historinha leve. Para contribuir no otimismo geral. E já dou, ao leitor amigo, boa informação. A de que vai ter férias desse pobre escrevinhador. Até depois do carnaval. Se Deus quiser, claro. Bons anos para todos.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.