Dez anos da morte do escritor português Manuel Ferreira Lopes

Marly Mota
Membro Correspondente da Academia Luso Brasileira do Rio

Publicação: 05/01/2017 03:00

Especialista em Literatura Portuguesa, diretor da Casa de Cultura e Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, Museu de Etinografia e História, conhecedor da obra de Eça de Queiroz, ambos nascidos na Póvoa de Varzim. Manuel Lopes foi designado a acompanhar de Lisboa ao Brasil, a exposição Percurso da Geografia Queiroziana da Biografia à Ficção, ao Rio de Janeiro, ao Recife, com pousada no Real Gabinete Português de Leitura, em noite festiva, aberta aos sócios, autoridades, entidades culturais, amigos portugueses, a Sociedade Eça de Queiroz no seu todo, presidida pelo escritor, Dagoberto Carvalho Junior. Nessa oportunidade expus Cenas Ecianas, doze quadros ilustrados, com sugestivas imagens dos livros: Os Maia, A Cidade e as Serras, expostos na ocasião.

Voltando a Lisboa Manuel Lopes comenta: (...) Foi a redescoberta deste Brasil, aberto ao coração dos Portugueses, que marcou as mais gratas vivências da minha breve estadia no Rio de Janeiro e Recife.” Apreciei demoradamente no Gabinete Português de Leitura, aquelas deliciosas “ ‘tabuas votivas”, consagradas á evocação imaginética da obra de Eça de Queiroz, na originalidade da sua obra. Não queria deixar de agradecer, muito sensibilizado, aquele jantar de despedida, em tão magnífica e culta companhia, a sua, dos Drs. Gladstone Vieira Belo, Dagoberto Carvalho Junior, Hélio Coutinho Filho, Maria de Lourdes Hortas, José Quidute. José Rodrigues de Paiva, entre outros.

Manuel Lopes escreve em 28 de junho de 1996. “As suas “Cenas Ecianas” enchem já de cor e pernambucana memória o átrio nobre da nossa Biblioteca Municipal. Ficam em literária companhia: Eça e Camões, em duas exposições documentais de aliciante legibilidade. De Agosto a finais de Outubro percorrerá a anunciada e queiroziana itinerância. Enfim, seus quadros ficarão em Portuga, expostos no Museu de Etinografia e Historia. Em agradecimentos por carta, dirigi a Câmara Municipal, aos Drs: José Macedo Vieira, Luiz Diamantino, Paços do Concelho, Praça da Almada, 4490 - Póvoa de Varzim, Portugal.

O amigo Manuel pede-me para pintar o quadro: “Janela para o Brasil”. Em agosto de 1996, escreve: “Gostei muito do quadro Janela aberta para o Brasil. Responde perfeitamente ao que pretendíamos. A pintura, vai iluminar o recanto informativo e documental brasileiro da nossa Biblioteca Municipal aos visitantes da Exposição concebida sobre a história da Casa dos Poveiros do Rio de Janeiro,tratava-se da homenagem pública a duas grandes figuras do Rio de Janeiro: Mons. Abílio da Nova e Dr. Antonio Gomes da Costa. Foram enviados vários convites á Embaixada do Brasil. O Senhor Embaixador do Brasil Itamar Franco, mandou dizer pela secretária: Deslocar-me á Póvoa, “Nem Pensar.”

Enviou-me fotos, recortes de jornais, quando conjuntamente circularam por Portugal as duas exposições: “Passando por Guimarães na Biblioteca Raul Brandão, suas “Cenas” atraíram a mirada atenta do escritor José Saramago que as comentou com entusiasmante apreço e cobiçado interesse aquisitivo.” Manuel Lopes, cultivava suas raízes pernambucanas, revelara nunca ter dormido em rede. Escreve-me com alegria (...) Chegou a rede nordestina em suas esvoaçantes fraldas de renda, cruzando o Atlântico como um tapete tão mágico quanto voador. Já a desenrolei no meu sobrado. Em memória íntima maternal da minha pernambucanidade, não desejo outra mortalha para me vestir a última morada.  

“Grande velejador o amigo Manuel Lopes levou a lancha Poveiro do Alto a competições. Numa delas, quando se dirigia a Alcântara para saudar os veleiros da Regata Cutty Stark em agosto de 1998, o mastro da embarcação, partiu-se levando o amigo a uma queda violenta fraturando o fêmur, levando-o a um prolongado internamento hospitalar. Aqui os livros, as leituras diminuem o tempo e iludem a angústia.

“Recebi sua oferta dos livros: Guerreiros do Sol, do sociólogo Frederico Pernambucano de Melo que irei ler com o maior interesse. Gostei de Curral da Fala, do poeta seu filho Maurício Mota, sobretudo pela arte poética tão belamente expressa: Nas notícias que a alma dá das coisas humanas. Claro que gostei muito das Vozes Poéticas”. Em alguns casos é melhor não ouvir a voz dos poetas. Não perdemos nada em desconhecer a voz de Camões, a declamar Os Lusíadas a de Dom João III no Claustro do Convento de São Domingos! A voz de Mauro Mota não me desencantou. Veio ao encontro da que imaginei quando muito antes li os seus poemas. O amigo, Manuel Ferreira Lopes, meio a meio português e brasileiro, pai português e mãe pernambucana. Ausente há dez anos, trago-o de volta nesta modesta homenagem.

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