Um breve conto de ano novo

Luciana Grassano Melo
Professora de direito da UFPE

Publicação: 03/01/2017 03:00

Venha, sente aqui. Ela me dizia isso enquanto batia com a mão espalmada no assento ao seu lado, do banco da praça.

Parecia ofegante, ainda. Procurando descanso para o corpo cansado que, pequeno, cabia bem na tábua estreita do banco, velho e desconfortável.

A noite era fresca e a praça escura, com poucas luzes amarelas que rompiam dos vidros das cúpulas dos antigos postes, espalhados pela calçada da praça.

Seus cabelos castanhos se confundiam com a noite e emolduravam seu rosto jovem como a escuridão, que ressalta a lua. Seus olhos eram tão felizes que iluminavam meu caminho como dois abajures acesos, na penumbra de um quarto.

Gravei na memória aquela cena como uma canção de que se gosta, e que de tanto escutar, se decora.

Ela me chamava para sentar-me ao seu lado, enquanto sorria. E com o seu sorriso, distribuía a promessa de dias tranquilos. Sorria com o calor de quem abraça, e me chamava para sentar-me ao seu lado.

- Venha, sente aqui - me dizia, enquanto nos afastávamos. E na memória revejo essa cena inúmeras vezes. Ainda hoje parece tudo tão confuso que não sei se era eu que me afastava ou se era aquele banco que se evaporava como bruma na escuridão, junto com a voz dela que, já quase imperceptível, me chamava para sentar-me ao seu lado.

Quanta vida se passou antes de eu voltar àquela praça...

É o que faço hoje: volto àquele banco da praça. Mas hoje sou eu que chamo: - Venha, sente aqui. E vejo aquela velha cena se construindo como uma nova história.

Estendo a mão para conduzi-la a sentar-se ao meu lado. E aquela promessa de dias tranquilos, hoje, é o meu sorriso que lhe oferece. E os meus olhos são duas estrelas guias, não dois abajures que se possam apagar, já que ainda brilham mesmo depois de tantas desilusões e cansaços.

- Venha, sente aqui - eu faço esse convite, como uma promessa de dias melhores para um ano novo que começa.

- Venha, sente aqui.

E vou reescrevendo aquela cena para no futuro lembrar-me não mais de uma saudade, mas de um beijo bom, dado em câmera lenta: suave, molhado e demorado.

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