Revelado o 'fabulário' de Fátima Brasileiro

Raimundo Carrero *
raimundocarrero@gmail.com

Publicação: 02/01/2017 03:00

Bem, não são fábulas tradicionais, do tipo La Fontaine ou Esopo. Mesmo assim há em Memórias afetivas (Cepe Editora) da estreante Fátima Brasileiro, um tom de fábula, de representação do humano, de efeito edificante e saudável, que este gênero literário parece sugerir em cada frase, em cada palavra, em cada sinal gráfico. E, ainda assim, ligada à literatura regional, com destaque para o folheto de cordel.

Uma leitura atenciosa do conto A noiva esperta, o quarto do livro, mostrará como a escritora de primeiro livro trabalha, quem sabe, até inconscientemente, a estrutura do folheto de cordel, com um enredo plano, embora cheia de surpresa, a destacar o caráter do personagem central, intrigante e esperto, com armadilhas que se revelam eficazes, porque enganam até mesmo o leitor.

Inominado – a exemplo do que ocorre com personagens importantes de Vidas secas, de Graciliano Ramos – o rapaz intrigante do conto de “Fátima” termina derrotado afetivamente pela jovem Terezinha, como só acontece nas fábulas tradicionais. Terezinha lembra,  de alguma  forma, a personagem da cançonete popular, embora não fique claro se ela atua  por esperteza ou por ingenuidade.

Aliás, outra qualidade do conto: esconde, com habilidade, o que verdadeiramente acontece, sobretudo nas noitadas do personagem central com as noivas. É claro que todos nós sabemos e percebemos, mas a narradora prefere não dizer: seguindo a máxima da narrativa: o narrador não conta,  mostra ou sugere; deixa que o leitor descubra, tornando-se quase um conarrador.

O que destaco aqui é que Fátima Brasileiro revela-se – no seu livro aparentemente despretensioso e singelo – uma autora consciente do seu ofício, sem apelações inúteis, sem técnicas recambolescas, sem palavras grandiloquentes, mas com humildade e beleza, sem a pretensão que às vezes provocam os estreantes.

Não preciso dizer que Fátima é minha aluna na Oficina de Criação Literária, turma da noite, segunda e quinta. Vem estudando comigo na Livraria de Cultura Nordestina, desde a Rua Sergio Magalhães, Graças, passando pelo Poço da Panela, e agora no Centro Cultural, no Espinheiro.

* Escritor e jornalista

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