Brasil e Colômbia: uma só América Latina

Maurício Rands *
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Publicação: 02/01/2017 03:00

Todo final de ano, a revista The Economist escolhe “o país do ano”. Os jurados não exigem que o escolhido seja pacífico e desenvolvido. O que eles visam é premiar aqueles países que passam por melhorias substanciais. Este ano ficaram entre os “finalistas” Estônia (performance de suas crianças no Pisa), Islândia (mais rápido crescimento em 2016), China (diminuição da pobreza rural), Taiwan (consolidação da democracia mesmo ameaçada pela China) e Canadá (pela redução das emissões de gás e por ser um dos países mais democráticos e abertos do mundo, com 20% de sua população nascida no estrangeiro).

Mesmo diante de tão fortes candidatos, a Colômbia foi a escolhida. Meio século de guerra entre as Farc e o governo custaram 200 mil vidas e outras tantas frustradas pelo subdesenvolvimento. O processo de paz sofreu um setback quando  foi rejeitado o referendo sobre o acordo de paz celebrado entre o presidente Juan Manuel Santos e as Farc com a mediação de Cuba. Mas tiveram o equilíbrio de renegociar o acordo e o país, finalmente, está com a paz consolidada. E com muitas potencialidades de desenvolvimento e bem-estar.

Quando lemos Gabriel Garcia Marques, ou quando visitamos Bogotá, sentimos o quanto temos de identidade com a história e com o jeito dos colombianos. Mas até hoje permanecemos distantes. Como se não fôssemos parte do mesmo povo latino-americano. A começar pelo descuido de estudarmos a língua do nosso continente. Nosso país já teve um presidente jovem e vigoroso como Collor. Demasiadamente ansioso, não achava legal dedicar um tempinho que fosse à intimidade com os livros e com o estudo. Por isso, na arrogância dos que não conhecem, achava que falaria espanhol sem estudá-lo. E aí veio com o famoso duela a quien duela. Ao invés do correto le duela a quien le duela.

O exemplo mostra o descaso para com os países do nosso continente, mesmo a identidade sul-americana sendo considerada um dos cânones da nossa política externa. A aproximação entre o Brasil e os irmãos da América Latina começa a seguir uma outra trajetória. Que começou com uma tragédia, a dor coletiva da queda do avião da Chapecoense. Que teve seguimento nas cenas de solidariedade dos colombianos com o a dor de um outro povo. Jamais esqueceremos as dezenas de milhares de pessoas no estádio de Medellín e no seu entorno prestando homenagem aos adversários até ontem. Talvez ali, com dois povos irmanados como se fossem uma só nação, o sonho de unidade latino-americana tenha dado um grande passo. Simón Bolívar, San Martín e Abreu e Lima estarão vindicados, vendo não terem sido vãs suas tantas pelejas pela unidade do continente.

Mas, a esse despertar de pertencimento à América Latina, devem-se seguir políticas públicas que viabilizem o intercâmbio entre nossos povos. Por isso, a perspectiva de um voo direto entre o Recife e Bogotá não poderia vir em melhor momento. Quando os pernambucanos descobrirem os encantos de Bogotá e Medellín, estarão abrindo portas para que os colombianos descubram as maravilhas da nossa música, arte, culinária, literatura, arquitetura, belezas naturais e identidades do passado colonial. Experimentarão a receptividade dos pernambucanos. Para isso, precisamos estar atentos, todavia, para prevenir atos de violência de malfeitores que não traduzem o bom momento de integração da América Latina que tem sido impulsionado, entre nós, pelos voos recentes para Buenos Aires e Montevidéu.

* Advogado, PhD pela Universidade Oxford, professor de direito da UFPE

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