Arquivos de Pernambuco: Da lama ao digital

Rafael Soares *
etiene.bahe@sad.pe.gov.br

Publicação: 30/12/2016 03:00

O exercício da atividade administrativa, em especial no governo, é caracterizado pela geração, processamento e compartilhamento de informações registradas, que nascem integradas ao processo decisório e às atividades ordinárias do Estado e posteriormente são recolhidas como testemunhos históricos e memoriais pelos arquivos. Desde a Revolução Francesa os arquivos passaram a ser reconhecidos como entidades públicas e as informações neles contidas como patrimônio cultural da humanidade.

A preocupação com a gestão dos documentos de arquivo no Governo de Pernambuco pode ser observada desde os tempos coloniais. Já no século XVII, as capitanias do Brasil possuíam Secretários de Governo, encarregados de assistirem aos despachos dos governadores, secretariar e organizar os papeis, tanto os que vinham do Reino quanto os que eram remetidos para lá, atuando na produção, circulação e organização da informação em diferentes níveis. Em 1713, o então Governador da Capitania de Pernambuco, Félix José Machado, recebeu elogios por carta régia pelo bom trabalho em organizar os registros das cartas da Secretaria de Governo.

A destruição e a desorganização, entretanto, também fizeram parte do quotidiano dos acervos. No caso específico Província de Pernambuco, as condições climáticas tornaram a questão ainda mais difícil. O professor Marcos Galindo, da UFPE, costuma lembrar-nos que nos trópicos, “os cavaleiros da tragédia da memória são a umidade do ar, as temperaturas elevadas, os agentes biodegradadores e a incúria humana”.

O arquivo público pernambucano não fugiu à regra. O Arquivo Geral pernambucano foi criado em 1842 pelo, à época, presidente da província, Francisco do Rego Barros, o Conde da Boa Vista, para organizar os “papeis antigos”. O professor Josemar Melo (UEPB) aponta quatro acontecimentos que contribuíram fortemente para a perda de parte considerável do acervo do Arquivo. O primeiro foi um incêndio após sua transferência do Palácio do Governo (transformado momentaneamente em Paço Imperial devido visita do imperador Pedro II) para o convento de Santo Antônio em 1859. Em 1922, o segundo, quando durante a reforma do mesmo palácio, “carroças e mais carroças jogaram ao Rio Capibaribe a maior parte do Arquivo do Governo”. A memória de Pernambuco foi parar literalmente na lama.

Em 1965, a conhecida receptividade pernambucana aos visitantes estrangeiros permitiu que pesquisadores retirassem um “incalculável número de documentos” do Arquivo Público de Pernambuco para enriquecer o acervo de outros arquivos, como o Museu Britânico e a Biblioteca Nacional de Paris. Por último, o Jornal do Commercio, em matéria de 1998, intitulada “Uma longa história de perda de memória”, cita a queima das atas dos atos revolucionários de 1817.

Neste momento em que o Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano reinaugura a sua sede, ele depara-se também com a necessidade de mudar esta tradição e de se preparar para outro desafio ainda maior: a curadoria dos acervos digitais típicos do século XXI. Somente desta forma poderemos almejar enfim sermos novamente merecedores dos elogios dos tempos de capitania.  

* Gerente de Arquitetura de Sistemas da Agência Estadual de Tecnologia de Informação de Pernambuco

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