Duas histórias de Natal

José Paulo Cavalcanti Filho *
jp@jpc.com.br

Publicação: 30/12/2016 03:00

A vida não é uma estrada reta, previsível, em que se olha sempre em frente. Já sabendo como findará. Ela é mais como um cordão sem ponta em que, a partir de algum momento impreciso dessa trajetória, começamos a buscar nossas raízes. Entre um ponto e outro, entre o passado que passou e o futuro que fascina, estão nossos passos. Quem somos. Fernando Pessoa escreveu, em um poema sem título (de 7/4/1917), que “Nada em nós resta do que é nossa história/ Salvo a memória inútil da memória”. Mesmo com o risco de serem só memórias inúteis, quem sabe?, aqui vão duas histórias reais que vivi. Duas histórias de Natal. Duas histórias que, mais uma vez, revelam os abismos da alma humana.

O MENINO E OS PEIXES
Maria, uma velha amiga, foi ao escritório do doutor. Em busca de dinheiro para o Natal. Ela e um filho de 12 anos. O doutor perguntou quanto seria. Maria disse. E recebeu aquilo que pediu. Vendo seu menino, o doutor lhe deu mais 50 reais, advertindo: “Esse dinheiro é seu. Para comprar uma bola. Não dê à sua mãe, não”. O menino respondeu: “Gosto de jogar futebol, doutor, mas vou é comprar peixe”.

O doutor não entendeu. Maria explicou que vive de revender peixes ornamentais. Compra no atacado, cada um, por 2 reais. Na feira de Casa Amarela. E revende, em pequenas sacolas com água, por 4 ou 5 reais cada. Na feira do Cabo. O filho completou sua fala: “Quero ser gente doutor. E, agora, tenho capital para começar meu negócio”. 50 reais, pensou o doutor. Quase nada. Lamentou, por compreender que não teria infância. Mas gostou de ver o brilho especial nos olhos daquele menino. Kaúan, é como está registrado. Não dá para esquecer um nome escrito assim.

Depois que se despediram, tentou imaginar como estará ele daqui a 40/50 anos. Talvez, como seus irmãos, (sobre) viverá na lama. Ou talvez, como tantos, nem chegue à maioridade. Mas, talvez, sua sina seja outra. Quem sabe será alguém importante. Um dos muitos que vieram de baixo e venceram na vida. Temperança tem, para isso. No fim daquela tarde, o doutor comprou uma bola de couro, número 5, a mais cara da loja, e mandou entregar ao filho de Maria. Feliz Natal, pobre criança.

O CASO DA BICICLETA
Era 24 de dezembro. Começo da tarde. O doutor voltava para casa pensando já nas festas da noite. Parou para comprar milho assado, na esquina de sempre. João, encostado no muro, chorava sem parar. O doutor perguntou a sua mulher Joana, perto do fogareiro, “O que aconteceu?”. Joana e João, como se o destino desde muito soubesse que acabariam juntos.

A mulher explicou. É que ele prometera dar, ao filho menor, uma bicicleta. Acertou a compra de uma, usada. E foi buscar, no Recife. Só que, ao pagar, percebeu que um ladrão levou seu dinheiro nos apertos do ônibus. Voltou para Boa Viagem a pé. Sem um tostão no bolso. E sem a bicicleta, claro. Chorava por não saber como explicar isso ao filho.

O doutor comparou sua própria vida à daqueles dois amigos. E percebeu, na pele, o quanto ela é injusta. É mel e é fel. Percebeu também que o caso não estava de acordo com o espírito natalino. Era um Natal ao contrário. Um Natal com final infeliz. Um anti-Natal. Então, abriu a porta do carro e disse: “Entre aqui, João”. Logo chegaram à loja que o doutor procurava. Saltaram. “Como era a bicicleta que ia dar ao menino?, João”. O amigo apontou para uma enfeitada, na vitrine: “É do tamanho daquela”. O doutor mandou João tirar de lá, subir nela e ir embora. E João foi mesmo. Pedalando a tal bicicleta embandeirada e colorida. Feliz. Tudo sob olhares assustados dos funcionários da loja. O doutor disse “tenham calma”, pagou a conta e foi embora.

Chegou em casa contente, dava para ver no rosto. A mulher perguntou a razão de tanta alegria. O doutor respondeu que acabara de ganhar um belo presente. Não disse o que aconteceu. Nem que deu aquele presente, como seria mais natural (considerando ter pago pela bicicleta). Disse apenas que recebeu. E foi mesmo. O melhor presente de Natal que recebeu nesta vida. No começo da noite, olhou para o céu em busca da primeira estrela que eu vejo. E viu Vesper, a estrela da tarde, brilhando intensamente. Bem no alto.

P.S. Bons anos a todos.

* Jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras

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