Tempo de embebedar os jumentos

José Carlos L. Poroca *
jcporoca@uol.com.br

Publicação: 29/12/2016 03:00

Para evitar especulações de qualquer ordem, informo, desde já, tomei emprestado o título do surpreendente filme iraniano “Tempo de embebedar os cavalos” (“A time for drunken horses”), de Bahman Ghobadi. É preciso ter coração de pedra para não se emocionar com a história, que está relacionada a sofrimento, trabalho infantil, morte e a realidades de um mundo que ainda convive, de um lado, com ‘maçãs’ de última geração, e, do outro, exploração da fome, prática de radicalismos em nome de religião etc.

O cinema nos dá o privilégio de ver o que nem sempre pode ser mostrado através de outros meios, muitas vezes, para atender interesses “oficiais”. Tome-se como exemplo o “Vidas Secas”, de Nelson Pereira Santos, baseado no livro de Graciliano Ramos. O que foi mostrado na tela reflete a dura realidade dos que carregam o estigma de conviver com a seca e ter que abandonar a terra por falta de condições de sobreviver, como ocorre hoje com refugiados que saem da Síria e de outros países, em busca de uma vida menos sofrida (nem sempre será) em terras européias.

A seca não é fenômeno de hoje e quase todo mundo sabe que há alternativas para criar condições para que o sertanejo não se transforme em retirante. Por que não se faz? São várias as razões, mas, uma delas, é  óbvia: para não contrariar interesses de poucos. Quanto maior a dependência, maior a possibilidade de encantar o faminto pelo estômago.

Nesses rincões, onde as primeiras necessidades se sobrepõem à lei e à ordem, podem surgir bandos que ocupem o lugar do Estado. Aconteceu na Itália (Salvatore Giuliano), na Índia (Phoolan Devi), no Japão (Ishikawa Goemon), na Austrália (Ned Kelly), na Escócia (Robert Vermelho e William Wallace) e, também, no Brasil, com movimentos como o Cangaço e, mais recente, com essas turmas mais equipadas, mais preparadas e mais ardilosas.

No filme (“Tempo de Embebedar...”), baseado em histórias reais, contrabandistas dão bebida alcoólica às mulas, para estas suportarem a jornada do peso da carga, do frio e das dificuldades durante quilômetros, pela neve, na fronteira Irã-Iraque. Cá, para agüentar a carga e o clima, brasileiros tomam “álcool” para enfrentar o cotidiano. Quando acaba o efeito, vem uma tremenda ressaca. Tá dura a vida dos jumentos, digo, dos brasileiros.

(Em homenagem ao primeiro sogro, Georges Tannous Boueri, libanês, que veio para o Brasil com cerca de 20 anos. Levava mercadorias sobre lombos de mulas, em trecho de 60 Km (só ida), entre Guarapari e Vitória. Um herói.)

*  Executivo do segmento shopping centers

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