Eu preciso de um hino

Fernando Araújo *
fernandojparaujo@uol.com.br

Publicação: 27/12/2016 03:00

O ano que termina foi terrível. Sobraram escândalos, delações e prisões. O noticiário policial dominou a mídia. Incontáveis assaltos, assassinatos e explosões de caixas eletrônicos. Desemprego em alta, inflação e taxas de juros. O país dividido. O maniqueísmo se fez presente. Em parte isso se justifica, na medida em que a disputa política desperta paixões. E no brasileiro é mais acentuado, como dizia Sérgio Buarque de Holanda na sua clássica definição do “homem cordial”. O que age pelo coração. É impulsivo e excessivamente afetivo. Portanto, xô, 2016!

Para 2017, ainda falta uma expectativa política de solução ou diminuição dessas mazelas. Proposta de sincera transformação. Algo que seja dito com iluminação, convencimento e clareza. Porque tudo até agora só desencanta. Claro que esse desejo nada tem a ver com “sebastianismos” ou “messianismos”, senão com um anúncio puro e factível, na perspectiva de ser verdadeiro, crível. Algo kantiano. Que sirva para mim e para o meu próximo.

E o primeiro passo a ser dado é desarmar os espíritos. Moderar a paixão, fato gerador desse pré-falado maniqueísmo. De um lado, os que condenam o “ bolsa família”, dizendo estimular a malandragem, mas não abrem mão do “bolsa BNDES”, “Sudene” etc. Do outro, os que ainda sofrem da pior cegueira, a de quem não quer enxergar que seus aliados cometeram faltas graves e precisam responder por seus atos. É nessa hora que precisa aparecer uma voz que nos chame a atenção.

Este é um momento decisivo de fazermos escolhas. Escolhas desapaixonadas. É fundamental planejarmos o futuro, desde logo sabendo que não há vida sem a escolha de um caminho e que toda escolha pressupõe selecionar valores, valores esses que devem estar atrelados a referências. Escolher é pensar em opções melhores.

Com efeito, é chegada a hora da ética do diálogo, onde todos são chamados a dizer o que pensam. O certo e o errado devem se confrontar em praça pública, em plena luz do dia. Churchill exerceu esse papel na Inglaterra assustada de 1940, ao mostrar a evidência da ascensão nazista. Era um homem de ideias conservadoras, mas foi sincero no diálogo. Demonstrou amor por seu país. Por isso teve força moral para mobilizar, mesmo depois de ter dito a todos que só tinha a oferecer “sangue, suor e lágrimas”.

Desanimado e descrente como estou, nesse momento vou precisar de um ingrediente a mais. Um hino, uma canção forte que me levante. Como a que fez Rouget de Lisle para os franceses em 1792 e que arrastou multidões pelas ruas de Paris: “Vamos, cidadãos da pátria! O dia da glória chegou!”.

* Advogado e professor de direito

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