EDITORIAL » O desrespeito pelo próximo

Publicação: 27/12/2016 03:00

Final de ano é a época das listas – as melhores fotos, os melhores gols, as frases mais inusitadas, os melhores (e piores) livros e filmes etc. etc. Se há uma área em que 2016 foi generoso, esta área é a das imagens simbólicas. Não a das imagens por si só impactantes, porque estas, infelizmente, são comuns em todos os anos – acidentes, explosões, fome. Mas a das imagens que carregam tal simbolismo que se tornam emblemática de toda uma situação, e não apenas o retrato de um momento.

Uma dessas imagens é deste mês de dezembro; mostra um rapaz acendendo um cigarro nas chamas de um ônbius incendiado por manifestantes, em Brasília. Ele o faz como se aquele fosse um ato banal, como se um ônibus pegando fogo pudesse ser naturalmente um acendedor de cigarros. “[a foto] Parece lembrar que tudo chega, até para as pessoas que não se importam com nada, e que tudo passa”, interpretou o autor da foto, Adriano Machado.  

Ampliando um pouco a definição de Machado, podemos dizer que o “não se importar” com o absurdo do gesto protagonizado foi uma das marcas deste malfadado 2016.  É uma explicação que cabe, por exemplo, nos manifestantes que foram para os protestos levando os filhos acompanhados por babás – incapazes de, mesmo em um ato supostamente cívico, que não ocorria constantemente, e que pelo menos em tese defendia um país melhor para todos, incapazes de mesmo aí eles próprios cuidarem dos filhos. Sem querer comparar uma coisa com a outra, até porque têm profundidades diferentes, o “não se importar” é uma explicação que cabe também nos que fizeram de órgãos do Estado ou da política instrumentos para arrancar dinheiro de empresários - e estes, também, “não se importando” a ponto de tratar com desdém aqueles a quem fornecia propinas, tratando-os por apelidos desrespeitosos e até ultrajantes.

O “não se importar” na verdade significa um desprezo pelo outro e pela legalidade. É o egoísmo levado às últimas consequências – vivemos em sociedade, o que fazemos tem repercussão na sociedade, mas vocês que se danem, parece querer transmitir este comportamento. Esse tipo de postura, de atitude, é uma erva daninha em qualquer sociedade, impede sua evolução e danifica os alicerces de valores tradicionais que todos deveríamos cultuar – tais como, para lembrar alguns básicos, a ética, a honestidade, a educação, o respeito pelo próximo.

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