Relatório da Cia: 'Arraes é muito querido pela população'

Raimundo Carrero *
raimundocarrero@gmail.com

Publicação: 26/12/2016 03:00

A frase está na página 131 do ótimo livro Pernambuco em Chamas, de Vandeck Santiago, edição da sempre exemplar Companhia Editora de Pernambuco – Cepe –, “Miguel Arraes é muito querido pela população”, referindo-se  às possibilidades eleitorais do líder pernambucano na disputa com João Cleofas nas eleições estaduais. A frase, porém, vinha acompanhada de outra informação, na época mais do que uma informação: um estigma, ele é “pró-comunista”. E, mais do que um estgma, uma condenação em absoluto. Tudo porque a guerra fria estava no seu momento mais crucial com Fidel Castro avultando na América Latina, com o apoio decisivo de Moscou.

Arraes sempre teve grandes preocupações com o destino do povo brasileiro, desde muito cedo estudou e criou um projeto sociocultural para o país, e vem daí a simpatia da esquerda, sobretudo do Partido comunista. Há, nisso tudo, um episódio que considero fundamental para o projeto de Arraes. Não está no livro de Vandeck mas é narrado por Germano Coelho nas suas memórias. Conta Germano que, ao chegar à Prefeitura do Recife, eleito com grande quantidade de votos, Arraes verificou espantado que não havia verbas para a educação. Pediu então ajuda aos intelectuais para empreender um grande movimento educacional. Surge o embrião do Movimento de Cultura Popular – o histórico MCP – e, na sua trajetória, o professor Paulo Freire, cujo método de alfabetização para adultos revolucionaria o ensino no Brasil, em todos os níveis. Tudo muito estabelecido, o MCP passou a se hostilizado pela direita, gerando m forte clima de hostilidades.

O curioso é que sempre me incluem como integrante – fundador do MCP,  sobretudo na Wikipedia, a enciclopédia da Internet, em que leio isso todos os dias. Naquele período eu era apenas um menino de 12 anos que chegava ao Recife para estudar no internato do Colégio Salesiano, e não tinha qualquer ideia política, pelo óbvio. Seria precocidade demais. Só comecei a ouvir falar em Arraes quando fui para o externato do colégio e depois no Arquidiocesano, onde estudei apenas um ano. Ali conheci meu amigo de vida inteira José Araújo. A primeira vez que “vi” Arraes foi num comício no coreto da praça de Salgueiro, em frente à minha casa, ao lado de dr. Severino Alves de Sá, sempre vestido de branco, gritando: “Arraes não é comunista”.

Mas o que quero destacar aqui é a imensa qualidade do livro de Vandeck, um texto brilhante, íntegro compromisso com a História, rigorosa pesquisa, elegante na frase e na informação. Magnífico.

* Escritor e jornalista

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