Brasileiro Profissão Esperança

Maurício Rands *
opiniao.pe@dabr.com.br

Publicação: 26/12/2016 03:00

Raimundo Rands e Célia Coelho, meus pais, sempre escutavam o vinil com o musical sobre Antônio Maria e Dolores Duran. Rio, Canecão, 1974. Apresentação sublime de Paulo Gracindo e Clara Nunes. O grande pernambucano se autointitulava brasileiro, profissão: esperança. Daí o nome do show imortal. Nesse Natal das redes sociais, desfilam as mensagens que, sem saber, invocam Antônio Maria. Mesmo depois de um ano pra lá de ruim, todos renovam as esperanças de que 2017 seja diferente. Embora contra as evidências. No fundo, esperamos que a diferença venha de dentro de cada um de nós. Porque o cenário externo não parece auspicioso. Na política, como na economia. No país, como no mundo. Aqui a crise parece não acabar nunca. Os empregos e o poder aquisitivo mais parecem pitadas de manteiga na frigideira. A violência e a desordem de nossas cidades não convidam o cidadão a viver suas ruas e praças. As pessoas buscam refúgio nos shoppings, nas redes sociais e nas próprias casas. Vão se tornando seres virtuais. Vai esmaecendo essa grande marca da alma nacional: a sociabilidade, o gostar de estar juntos. A corrupção parece ter contaminado todo o sistema político e econômico. Do exterior, vem um cenário de intolerância, egoísmo e terrorismo. Líderes como Trump e Putin parecem ter mais capacidade de fazer o mal do que outros, como Obama, papa Francisco e Ângela Merkel, de fazer o bem.

Por isso, neste final de ano, lembro-me de dois grandes amigos boêmios, Morse Lyra e Mossoró, que cedo nos deixaram. E que só queriam o bem. Não apenas de seus familiares e amigos. Mas também de quem não conheciam. Vinícius de Morais, em sua ‘Oração para Antônio Maria, pecador e mártir’ (1968): Às vezes eu fico pensando. Não sei se você gostaria de estar vivo agora, meu Maria, depois de 1964. Tudo piorou muito, o governo, o meu caráter, a música. Não resisto a fazer a mesma indagação a Morse Lyra e Mossoró, belos exemplos de uma geração generosa, que sonhou com uma sociedade mais justa, menos corrupta, mais tolerante e menos violenta. Aos dois, parafraseio o poeta do amor infinito. Não sei, amigos, se vocês gostariam de estar aqui, vendo grassar tanta coisa que vocês desprezavam. Mas é em outro grande poeta que busco inspiração para imaginar que nem tudo está tão mal. Alceu quando diz, em Anunciação, que ‘já escuto os teus sinais’. Podemos sentir, em muitas pessoas, uma vontade interior de mudanças. Uma nova atitude. Nas páginas do Diario assistimos ao desfilar de iniciativas de pessoas que cansaram de esperar o advento de um novo sistema socioeconômico, de um novo e grandiloquente projeto alternativo de sociedade. De uma grande narrativa. Multiplicam-se as microiniciativas de quem quer fazer diferente, aqui e agora. Na política, com honestidade, sem corrupção. No empreendimento, buscando inovação, eficiência e responsabilidade social. No terceiro setor, com ações para aliviar o sofrimento das pessoas em situação de pobreza, doença ou solidão. Como fazem as ‘Guerreiras do Calendário’, os ‘Doutores da Alegria’ e outras ONGs de voluntários. Ainda que esse bem seja feito a poucas pessoas. Na percepção dos nossos problemas, cresce a consciência de que uma educação de qualidade para todos será a principal ferramenta de reconstrução de um país que chegou ao fundo do poço. Talvez, com Alceu Valença, possamos dizer que já sentimos alguns sinais. Que mudanças interiores, de atitudes e de percepção já estão ocorrendo em muitos ambientes.

 * Advogado, PhD pela Universidade Oxford, professor de Direito da UFPE

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.