Natal magro

Luciana Grassano *
opiniao.pe@dabr.com.br

Publicação: 22/12/2016 03:00

Daqui a uns dias será Natal, e há dias que já estamos em clima de fim de ano. Como essas datas simbolizam ao mesmo tempo fim e início, decidi começar a escrever pelo que poderia ser a minha frase final, que peguei emprestada de Carlo Bordoni em ensaio escrito sobre a crise do Estado: “As necessidades de hoje nada mais são que restos sedimentados e petrificados das escolhas de ontem – exatamente como as escolhas de hoje originam as verdades emergentes de amanhã”.

É comum escutarmos os governos culparem a crise pela falta de investimento, pela diminuição da produção, pelo aumento do desemprego, pela eliminação de direitos sociais. É culpa da crise! Como se a crise fosse uma entidade abstrata, e por isso a atribuição de responsabilidade tivesse que ser absolutamente despersonalizada.

Gosto desta frase porque ela parece tirar a culpa da crise, e na medida que relaciona as necessidades de hoje às escolhas de ontem parece dizer-nos: a crise que vivemos não é uma entidade abstrata, mas é resultado de nossas escolhas.

No balanço que faço para o meu Natal, sinto-me em paz com as minhas escolhas pessoais e políticas, apesar de muito triste com o estado de necessidades de meu país de hoje. Sinto-me também muito nostálgica. Sinto a nostalgia de um tempo em que me orgulhava de dizer-me brasileira onde quer que estivesse, pois via o meu país com olhos cheios de esperanças, acreditando que estivesse pronto para modernizar-se para o futuro, e no caminho de tornar todos os seus cidadãos mais irmãos em seus direitos.

Apesar de tantas confraternizações e de tantos encontros com os amigos, não me recordo de ter passado por um Natal tão magro, em toda a minha vida. Porque os sorrisos e os bate-papos entre uma taça e outra de vinho não conseguem tirar de mim a sensação de que estamos mergulhados numa grande onda tóxica.

Estamos mergulhados numa onda de individualismo, de corporativismo, de hipocrisia, de cinismo, de irresponsabilidade, de insensibilidade e de violência. E não entramos numa onda dessa a não ser através das nossas próprias escolhas.

Acho que todos os brasileiros, e acima de tudo nossas autoridades, deveriam se preocupar em refletir em que medida as suas escolhas durante o ano de 2016 podem ter contribuído para o estado de necessidades que vivemos hoje. Em que medida contribuíram para estarmos todos mergulhados nessa grande onda tóxica.

Sinceramente, me enche de indignação escutar dirigentes máximos de poderes dizerem: “Onde um juiz é destratado, eu também sou” ou “ Atacar um procurador é atacar todo o Ministério Público”. Me enche de indignação que num momento desses o principal plano do Ministro da Justiça seja erradicar a maconha da América do Sul, e que um senador tenha tido a desfaçatez de propor uma emenda constitucional para dar poderes constituintes a um Congresso que merece todo o desprezo dos brasileiros.

Sempre acreditei que a crise é o momento em que a velha ordem morre e em que é necessário lutar por um mundo novo. Não vejo, entretanto, nenhum esforço de nossas autoridades nesse sentido.

E é justamente por isso que as nossas escolhas de hoje são ainda mais importantes. É elas que vão originar as verdades de amanhã. Vamos escolher salvar o nosso país através do voto. Em 2017, vamos às ruas exigir que o poder seja devolvido ao povo.

* Professora de Direito da UFPE

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