Previdência privada é uma terceirização de serviços?

Paulo Marostika *
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Publicação: 22/12/2016 03:00

Preciso fazer algo, mas não possuo conhecimento e/ou tempo. E aí? Aí você decide terceirizar a sua decisão/responsabilidade. A terceirização de nossas responsabilidades, quando feita, deve ser realizada com parceiros que efetivamente temos confiança. Quando terceirizamos uma de nossas responsabilidades, temos a expectativa de, no mínimo, obter uma qualidade de entrega do que se contratou igual ou melhor da que seríamos capazes de fazer nós mesmos, certo? Pois é, mas não é o que geralmente acontece quando optamos por aportar nossas economias em um fundo de previdência privada.

Segundo levantamento elaborado pela Empiricus Research, publicado no 2º semestre de 2016, considerando 1.283 fundos de previdência, 748 ou 58% dos fundos perderam para o CDI (Certificado de Depósito Interbancário ou Interfinanceiro) em termos de rentabilidade. Destes fundos, 53% do total entregaram abaixo de 70% do CDI no período. E pior: 11% deles não atingiu sequer metade do CDI.

Logo, precisamos saber se a responsabilidade terceirizada nos trará uma maior liberdade inicial adicionada a um benefício futuro, ou se apenas varreremos o problema para baixo do tapete, criando um problema maior. Não bastasse a passividade da extensa maioria dos gestores de fundos, há ainda as insustentáveis taxas de administração e carregamento. Estas taxas apenas se sustentam no Brasil por ficarem “escondidas” dentro das altas taxas de juros e aparentes altas taxas de retorno.

Sendo mais claro, imagine um país com retornos da ordem de 1% ao ano, como é normal nas economias mais desenvolvidas. Seria possível um plano de previdência privada cobrar 2% de taxa de administração e 2% de carregamento? Provavelmente, não! Afinal, ficaria evidente que o fundo teria rendimento negativo da ordem de -3%. Já no Brasil, o gestor de previdência, sem muito esforço, compra um título do governo a 13,75%, desconta as taxas da ordem de 4% e te devolve cerca de 10%. Bom negócio? Bem, se considerarmos que a inflação em 2015 ficou acima de 10%, isso significa ganho zero para o poupador.

O detalhe do ganho zero comentado acima pode ser considerado por alguns como razoável, pelo fato de não ter havido perdas. Esse é um ponto de vista, mas há outros. Um deles é a de se ter, basicamente com o mesmo risco, um retorno de 5% líquido acima da inflação. É isso mesmo: retorno da ordem de 5% sem taxas de administração e carregamento!

Com este retorno, e dada a inflação de 10% ao ano, o seu montante dobraria em cerca de cinco anos. Ou seja, para cada R$ 10 mil aplicados, em pouco mais de cinco anos você teria R$ 20 mil. Claro que estes R$ 20 mil, daqui a cinco anos, não comprarão a mesma coisa que compram hoje, já que a inflação vai corroendo o poder aquisitivo do seu dinheiro. Mas já é um bom começo para entendermos os juros compostos, principalmente quando aplicamos os nossos recursos corretamente.

* Planejador Financeiro

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