Lições de Arraes

Sérgio Montenegro *
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Publicação: 20/12/2016 03:00

Do alto dos seus 100 anos de vida – que completaria no último dia 15 de dezembro, se vivo estivesse – o que pensaria Miguel Arraes de Alencar a respeito do atual cenário político brasileiro? Como se comportaria o ex-governador de Pernambuco que, não obstante seus defeitos, inerentes a qualquer político, detinha entre aliados e adversários o reconhecimento de uma significativa virtude: a de jamais ter mudado de posição com relação aos menos favorecidos? É possível que muitos se tenham feito tal questionamento durante as comemorações do seu centenário.

Pensador diferenciado, ao longo da sua trajetória política Arraes subverteu o batido discurso paternalista adotado por tantos políticos. Recomendava que se trabalhasse “com o povo”, e não simplesmente “para o povo”. Como faleceu em 2005, é um evidente atrevimento tentar definir de que lado estaria ele hoje. Mas sua história e legado permitem ao menos um exercício de especulação.

Em termos de gestão, ao longo dos seus três governos é possível listar uma série de ações voltadas quase que exclusivamente para as camadas mais pobres. Do Acordo do Campo, em 1962, passando por programas emergenciais bem sucedidos do segundo governo, como o Chapéu de Palha, Chão e Teto e Vaca na Corda, até o extenso esquema de eletrificação de pequenas propriedades rurais, com o qual encerrou sua terceira gestão.

A maioria dessas ações ganhava dos opositores o carimbo de assistencialismo. Arraes era chamado de retrógrado e cobrado pela ausência de grandes obras de pedra e cal, ou de ações desenvolvimentistas. Às críticas, costumava responder questionando a quem serviria esse “desenvolvimento” se, naquele momento, havia milhares de pessoas pobres, famintas, sem água, luz, moradia e trabalho.

Ao mesmo tempo, era um profundo estudioso da política e da economia mundiais. Preocupava-se com as desigualdades e com o subdesenvolvimento dos países de terceiro mundo da mesma forma com que voltava suas atenções para a pobreza no Brasil e em Pernambuco.

Em termos de práticas políticas, Arraes costumava advertir sobre os desvios de rumo, lembrando que o foco deveria incidir sempre sobre os “descamisados”, expressão que usava para definir os pobres e miseráveis. Insistia que a disputa do poder pelo poder relegava ao segundo plano o principal protagonista da política: sua excelência, o povo.

Hoje, diante do mar de lama da corrupção, propinas e tráficos de influência, como, então, se posicionaria Arraes? Ao longo da sua carreira, jamais lhe pesaram denúncias de enriquecimento pessoal ou de buscar recursos financeiros para eleições de forma ilícita. Até mesmo o caso que ficou conhecido como Escândalo dos Precatórios – amplamente utilizado contra ele na campanha que finalmente o derrotou, em 1998 – terminaria por passar de raspão, sem macular sua imagem.

Hoje, diante da absoluta ausência de líderes políticos vigorosos e éticos e de gestores legitimamente preocupados com o social, ao se analisar com uma mínima profundidade sua trajetória de lutas e o reconhecimento popular obtido, torna-se incalculável o tamanho da falta que homens como Miguel Arraes fazem ao país e ao povo.

* Jornalista e consultor

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