EDITORIAL » Em defesa da indústria

Publicação: 20/12/2016 03:00

Diante da ordem de grandeza da economia da China no panorama global, o governo federal mantém cautela com relação às tratativas dos chineses em declarar a economia de seu país como de mercado, com a consequente entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC). Se a pretensão dos chineses se concretizar, ficará cada vez mais difícil a adoção de restrições à colocação de produtos da China no mercado brasileiro, quando considerados concorrentes desleais, devido aos subsídios. Hoje, 52 medidas antiduping brasileiras são direcionadas ao gigante da Ásia, na tentativa de proteger a economia local.

Ao manter silêncio e se negar a fazer uma declaração reconhecendo a China como economia de mercado, o Palácio do Planalto mostra-se alinhado com a indústria nacional, que não pode competir em condições de igualdade com uma economia em que a mão de obra é substancialmente mais barata, a legislação trabalhista inexiste e o poder central lança mão de mais de 3 mil subsídios. O setor produtivo tem recebido bem a postura do governo, pois teme uma onda ainda maior de importações chinesas, caso haja mudança no tratamento dado aos bens adquiridos do país asiático.

Em meio ao turbilhão da maior recessão vivida pelos país nos últimos tempos, com a taxa de desemprego se aproximando de 13 milhões de brasileiros sem postos de trabalho, todo esforço para impedir o fechamento de mais vagas no setor industrial merece todo o apoio. Pelos dados coletados pela Fundação de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), estima-se que 66 mil vagas seriam extintas caso o Brasil mude a forma de tratamento às importações chinesas, somente no primeiro ano de vigência da nova lei. O impacto imediato seria de R$ 18 bilhões.

As indústrias brasileiras agem corretamente quando evitam o confronto direto com a China nos tribunais da OMC. Para isso, vários setores se anteciparam e apresentaram dados ao governo pedindo a adoção de medidas antiduping a produtos chineses, antes de o país asiático ter se autodeclarado como economia de mercado. Dados levantados pela OMC mostram que 547 medidads antiduping foram aplicadas pelas maiores economias do mundo contra as importações chinesas, de 2008 a 2016, sendo 60 do Brasil.

O gigante da Ásia ameaça retaliar os países que não reconhecerem integralmente sua economia como de mercado, alegando que fez a lição de casa ao abrir suas fronteiras aos produtos de todo o mundo e mudar suas leis. Entretanto, na visão de especialistas, não existem condições para tal reconhecimento, principalmente devido ao envolvimento do Estado asiático na composição dos preços e do câmbio. Mesmo diante de possíveis confrontos futuros, o Brasil tem de se manter firme na defesa de sua indústria, sem cair na armadilha do ultrapassado protecionismo.

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