O 4º Banco do Brasil

José Aristophanes Pereira *
jaripe31@gmail

Publicação: 19/12/2016 03:00

Para chegar logo ao assunto principal, lembro que o primeiro Banco do Brasil, fundado por Don João VI, em 1808, quebrou poucos anos depois, em consequência de pedaladas (emissões sem lastro), praticadas pela Família Real e, também, por excessos de gastos, nos primeiros anos da Independência, aí pelos idos de 1830. O segundo banco firmou-se melhor, consolidou-se e, no longo período de, aproximadamente, 165 anos, entre sua refundação e 1995, foi o grande agente polivalente e desbravador, de singular desempenho e notável presença, nos grandes feitos sócio econômicos que marcaram esse rico e diversificado período da História do Brasil. Espalhou-se pelo Brasil inteiro, chegando às mais afastadas comunidades. Ensinou, orientou, disseminou e inovou, germinando a fértil semente da nossa cultura e tecnologia bancárias. A partir de meados dos anos 90, hipertrofiado pelo esforço do “milagre”, que se esfacelou, nas crises do petróleo, da dívida externa e da inflação, foi empurrado, inexoravelmente, para reformas que pariram, com grande dor, o terceiro Banco do Brasil. Ferido, profundamente, pela dispensa premeditada, mas abrupta, de milhares de colegas de trabalho, ainda hoje lembrados pelo acrônimo “pdvistas”, carrega remorsos e fantasmas de uma hecatombe administrativa sem precedentes. Nesse atribulado período, de pouco mais de 20 anos, despregou-se da sua longa história cultural, mudou padrões de valiosos recursos humanos, remendou buracos de perdas de privilégios e adotou atualizações tecnológicas e de gestão. Lamentavelmente, deixou-se impregnar pela deletéria influência do aparelhamento sindical-partidário, rendendo-se, temerariamente, às vontades do dono, em meio às contradições do “ser ou não ser” um banco público, ou privado.

As atribulações desse período foram, ainda mais, agravadas pelo tsunami que afogou quase todos os bancos públicos estaduais, debilitados uns, absorvidos outros e, muitos, condenados pela fobia à ingerência de seus governos estaduais. Essa tragédia está bem historiada pelo estudioso advogado Tertuliano Maranhão, no seu livro O Bandepe e os bancos estaduais - O fim da história.

Eis que, dias atrás – de mistura com as crises de nosso sofrido e empobrecido país, conduzido, aos trancos e barrancos, por um Governo vulnerável e claudicante, na consecução de tantas reformas maiores – o jovem e entusiasmado presidente do Banco do Brasil, provavelmente, com as “costas quentes”, anunciou a chegada do quarto Banco do Brasil. Para realçar, apenas, a parte quantitativa da sua proclamação, o “novo BB” cortará fundo na própria carne, extinguindo 402 agências e reduzindo o tamanho de outras 379, fechando 31 superintendências regionais e “estimulando” a aposentadoria de cerca de 18.000 antigos e dispendiosos funcionários, impregnados da cultura dos antigos Bancos do Brasil. No anúncio do arrojado presidente, essa reestruturação, ditada pela “nova era de competição bancária”, se apoiara em sensíveis atualizações do atendimento, por meios digitais, redução de custos, enxugamento da máquina administrativa, ganhos de capitalização e maior rentabilidade.

O Brasil, com notórias desigualdades econômicas, sociais e regionais, convive – e, paradoxalmente,  parece incentivar – com graves distorções no seu sistema bancário, caracterizadas pelo oligopólio, concentração espacial e hipertrofia, onde menos de 10 instituições conglomeradas, nacionais e estrangeiras, controlam mais de 80% do mercado. Em tal ambiente imperfeito e pernicioso, o banco público não constitui uma excrescência, nem uma afronta ideológica a ideais liberais. Serve de aferidor comparativo de desempenhos e, com poder moderador, orienta a correção de fluxos financeiros.

A despeito dessa constatação, não visualizei informação explícita sobre uma questão subjacente a esse ambiente e àquelas medidas. O 4º Banco do Brasil que tomará corpo, a partir da propalada estruturação, chega sem portar uma identidade nítida de sua natureza. Será, ainda, um banco público, com pendores coadjuvantes de políticas públicas, ou será um clone de banco privado? Neste caso, copiando os tristonhos dizeres do Dr. Tertuliano, é melhor anunciar “o fim da história”!

* Ex-Diretor do Banco do Brasil

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