O cardeal da esperança parte para a eternidade

Giovanni Mastroianni
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Advogado, administrador e jornalista

Publicação: 15/12/2016 03:00

Acaba de partir definitivamente para o cenário espiritual Dom Paulo Evaristo Arns, deixando seu nome registrado no hemisfério terrestre como o “cardeal da esperança”, por  haver sido uma das principais personalidades na luta contra a ditadura militar, no período de 1964 a 1985, principalmente quando, em 1983, após comício realizado em São Paulo, teve início a campanha por eleições diretas para presidente da República, ocasião em que o deputado Dante de Oliveira apresentou emenda constitucional propondo eleições diretas no país, emenda essa que não obteve os dois terços esperados  para sua aprovação no Congresso Nacional, fato que se constituiu em uma frustração para o povo brasileiro, pois as eleições continuaram sendo indiretas. Ele, a exemplo de Dom Helder Camara, arcebispo de Olinda e Recife, e outros dignitários da Igreja Católica, defendiam o popular voto direto.

Dom Evaristo Arns, em seus 71 anos de sacerdócio, foi uma das personalidades mais influentes da sociedade brasileira e da Igreja Católica, conhecido pela sua eterna luta, durante toda sua vida, em defesa dos direitos humanos do país. Graças à sua destemida perseverança política e a incessante luta em defesa dos pobres veio a ser cognominado o “cardeal da esperança”.

Apesar de alguns fatores plenamente justificáveis à época para que a Igreja Católica ficasse ao lado dos militares, apoiando o golpe, principalmente o medo da influência comunista, Dom Evaristo Ars, que, nos primeiros momentos da revolução, havia saído de Petrópolis, no Rio de Janeiro, para Minas Gerais abençoar soldados do Exército, foi ele próprio, como arcebispo de São Paulo, quem enfrentou a ditadura, passando, inclusive, a ser espionado pelos seus líderes. Enquanto isso, Dom Helder Camara, apesar de declaradamente combativo, considerado um eterno defensor das chagas sociais brasileiras, para não agrava a situação, evitava se pronunciar abertamente contra o golpe, agindo, apenas, de forma velada, embora reconhecida por todos. Já Dom Evaristo Arns, segundo relata a história, chegou a ser fichado no famoso Departamento de Ordem Política e Social, o conhecido DOPS, tão temido pelos cidadãos brasileiros.

Todavia, inúmeras são as obras realizadas pelo saudoso arcebispo, que ora deixa a vida terrena, sendo uma das mais destacadas a criação da Pastoral da Criança com o apoio de sua irmã Zilda Arns, que, há seis anos, faleceu no terremoto do Haiti, onde realizava trabalho humanitário.

Muito ainda irá ser dito sobre o pranteado recém-falecido, mas o registro de sua história permanecerá gravado em dois livros: O Cardeal e o Repórter e O Cardeal da Resistência, obras do jornalista Ricardo de Carvalho. Brevemente, será lembrado para sempre através de documentário que retrata sua resistência aos militares, filme que está prestes a ser concluído e bastante aguardado.

Parte, assim, para sempre aquele cuja atuação pastoral dedicou principalmente aos habitantes da periferia, aos operários, à criação de comunidades religiosas nos bairros e eterno defensor das pessoas.  Cognominado, também, Cardeal dos Direitos Humanos, foi o fundador e líder da Comissão Justiça e Paz, de São Paulo. Agora, graças à sua fé religiosa, parte para a imortalidade.

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