O golpe foi um fiasco

Luciana Grassano Melo
opiniao.pe@dabr.com.br
Professora de direito da UFPE.

Publicação: 15/12/2016 03:00

Eu fico me perguntando se esse pessoal pensava que ia dar um golpe, e pronto. Tudo ia ficar por isso mesmo. Entrava por uma perna de pinto e saía por uma perna de pato. Ninguém ia chiar. Os podres iam parar de aparecer porque, afinal, Temer é um grande político, excelente articulador e sabe dialogar com o Congresso, coisa que a gerentona da Dilma não fazia. Ahh! E a economia ia responder rápido, afinal, era um grande sinal para o mercado afastar aqueles petralhas do poder.

Francamente. Olho para o Brasil com completo estarrecimento. A melhoria na economia que prometeram nunca aconteceu, muito pelo contrário: vieram mais juros, mais inflação, menos PIB, mais previsão de recessão em 2017. A convulsão social é clara: muito mais desemprego, mais de mil instituições de ensino ocupadas, mais repressão policial aos movimentos sociais e Forças Armadas nas ruas.

E o presidente Temer é tão bom político e articulador que em seis meses de governo precisou demitir seis de seus ministros. Ele é um governante tão extraordinário que enquadrou pessoalmente seu ministro da Cultura para liberar apartamento embargado pelo Iphan de seu ministro da Secretaria de Governo. E é claro que a conversa foi gravada, porque quando se golpeia a democracia, o golpe arrasta consigo todos os limites legais e morais eventualmente ainda presentes no país.

Se a sociedade “mortadela” há meses vai para as ruas e ocupa escolas e universidades contra os retrocessos sociais: reforma do ensino por medida provisória; PEC do fim do mundo; reforma previdenciária, agora a sociedade “coxinha” voltou a bater panela contra a corrupção, como se aqueles que lutam contra a desigualdade social fossem contrários à luta contra a corrupção, mas num claro sinal de que quem luta contra a corrupção não necessariamente luta contra a desigualdade social.

E o presidente Temer foi citado 43 vezes, na primeira delação de executivo da Odebrecht. Serão 77. Temer foi citado junto com a cúpula do PMDB e seus principais aliados. E mandou uma cartinha para o Janot se queixando do vazamento da delação e pedindo celeridade. Santa hipocrisia!

Hoje sabemos que o nosso Parlamento funciona assim: ressalvados os políticos decentes, a maior parte de nossos parlamentares aluga o seu mandato em troca de grossas somas pagas pela iniciativa privada, que compra benefícios que os parlamentares conseguem aprovar em legislações. Ou seja, o seu poder não emana do povo.

No Brasil de hoje, nós precisamos escrever artigos de véspera, do contrário o escândalo citado já virou notícia velha. São tantos escândalos que eles não duram nem dois dias, e já são substituídos por outros de maiores proporções.

E no meio disso tudo, as pesquisas mostram que Lula é o grande favorito no primeiro turno das eleições em 2018. Sabem por que? Porque grandes líderes não se forjam na mídia, mas se constroem quando vão, dia a dia, continuando a sua jornada apesar das pedras jogadas em seu caminho. E grandes líderes têm projetos. O que preserva Lula é o projeto que ele mostrou que tem para o Brasil: distribuir renda e diminuir a pobreza. É desse projeto que vem a sua força e os seus votos.

* Professora de direito da UFPE.

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