As histórias de Arraes

João Recena*
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Publicação: 14/12/2016 03:00

Vanja procurava impor alguma ordem ao gabinete. Por volta das sete da noite, preocupada com a alimentação do governador, tentava encerrar o expediente e convencê-lo a subir ao segundo andar, para a ceia. Ao longo do estirão da tarde, ele fumava um interminável havana, aceso logo após o almoço, e tomava não sei quantos cafés sem açúcar. Arraes assumiu o terceiro governo com setenta e oito anos e, embora gozasse de boa saúde, Dona Madalena e Vanja se preocupavam com ele. O rojão de vida não era fácil. Para acompanhá-lo na ceia, Vanja convidava dois ou três auxiliares que estivessem por ali. Escolhia gente que ela achava que não iria sobrecarregar o governador com mais problemas. Após a ceia, apreciada sem muita conversa, nós passávamos para uma sala de estar. O cachimbo assumia o lugar do charuto e, no mais das vezes, embalado por uma dose de whisky, o governador começava a contar algum episódio de sua vida de clandestino e exilado. Não havia nenhuma ordem lógica. Uma noite, o assunto poderia ser a transferência de uma prisão a outra. Na noite seguinte, alguma recordação sobre a articulação internacional a partir da Argélia. Era a história contada pelo próprio personagem. E eu aguardava o dia em que, por acaso, ele viesse a falar sobre a sua prisão no palácio.

Os homens entram para a história através de algum ato singular que cometem. Arraes resistiu aos militares em sessenta e quatro, e isto bastou. Mas para entrar na lista curta dos governadores que teriam que ser derrubados, ele havia angariado para si a fama de esquerdista perigoso. Entre seus feitos, contava-se o Acordo do Campo, em que ele mobilizou a Polícia Militar para garantir o equilíbrio de forças nas discussões trabalhistas entre patrões e empregados na zona canavieira. Arraes fez outras coisas que se encaixam neste perfil biográfico. Como prefeito do Recife, deu meios para que florescesse o Movimento de Cultura Popular, com o que a classe média intelectualizada e engajada procurava levar cultura a quem de outra forma não teria acesso a ela. Arraes atuou também no campo prático. Promoveu em Pernambuco o maior programa de Eletrificação Rural que até então se havia visto no país. Tal foi a repercussão, que Fernando Henrique o transformou em um programa federal. E Arraes também fez coisas que não se encaixam na orientação biográfica que a história lhe reservou. Ninguém acredita, mas Arraes foi um dos grandes construtores de Suape. No seu terceiro governo, romperam-se os arrecifes e dragou-se o canal de acesso ao porto interno, obra que finalmente tornou Suape o sucesso irreversível que é hoje.

Arraes nunca contou com a admiração da classe empresarial e dos adeptos da modernidade em geral. Opositores, das mais variadas correntes, o reduziam a um mito. Para estes, ele era considerado uma pessoa rústica, que não falava a língua do mercado e que, com discurso popular, só fazia sucesso nos grotões e nas feiras. Quem, porém, prestasse atenção aos seus discursos e textos verificaria que ele foi um dos políticos mais cultos que já conhecemos. Inarredável em suas posições, atraiu muita resistência. Na inauguração da estrada para Guadalupe, um dos maiores investimentos turísticos à época, Arraes dedicou seu discurso a comentar as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores da palha da cana, o que contribuiu para reforçar na imprensa a pecha de que era contra o turismo. O poder encanta e ao mesmo tempo maltrata muita gente. Arraes colecionou ao seu redor muita gente descontente e amargurada. Gente que lutou anos para que ele voltasse ao poder e que, depois, não se sentiu devidamente aproveitada no governo. Gente que teria mais direito do que eu de ouvir, finalmente, depois de tanta espera, na intimidade da sala do segundo andar, ele próprio contar como foi a madrugada de primeiro de abril de sessenta e quatro. Aos que o amaram até o fim, como Adilson, e aos que se foram, amargurados, como Eldenor, eu dedico este artigo.

* Secretário de Planejamento do terceiro governo Arraes

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