EDITORIAL » Sob a sombra das Diretas-Já

Publicação: 14/12/2016 03:00

Ex--ministro de Comunicação Social de uma administração recente dizia que quando o governo está fraco,  “até o Tribunal de Contas” fala grosso contra ele.  Talvez a frase não faça justiça ao Tribunal, mas não há dúvidas que quando um governo se enfraquece os sinais de sua fraqueza saltam à vista de todos. Um desses sinais pôde ser visto ontem, quando o líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado (GO), sugeriu a renúncia do presidente Michel Temer e cogitou a realização de eleições diretas para a escolha do seu substituto. O DEM faz parte da base do governo e do próprio governo, com ministério e cargos. É evidente que se o governo Temer estivesse forte, não veríamos o líder de um partido nessa situação cogitando sua substituição.

Outro sinal apareceu em entrevista à BBC do amigo e consultor político do presidente, o professor da USP Gaudêncio Torquato. Segundo a matéria, ele disse “que a Operação Lava-Jato não vai derrubar o governo ‘porque todos os políticos de todos os partidos estão envolvidos’”.  O texto prossegue: “Por outro lado, afirmou que a crise econômica, essa sim, poderia influir para que Temer não concluísse seu mandato, que vai até o fim de 2018”. O sinal da fraqueza está na segunda frase: um assessor direto do presidente, que é seu consultor político, admitindo que o presidente pode não concluir o mandato. Novamente cabe a reflexão: quando um governo está forte, ninguém cogita a sua queda; porém quando está fraco…

Os sinais exigem interpretação, mas há outros fatores, ostensivos, que não precisam de subjetividade – são as pesquisas. Levantamento do Datafolha, divulgado no último domingo, mostra que “a popularidade do presidente Michel Temer despencou desde julho, acompanhada da queda na confiança da economia a níveis pré-impeachment”.  Segundo a pesquisa, 51% dos brasileiros avaliam a gestão dele como “ruim” ou “péssima”. Em julho, o percentual era de 31%.

O fato é que o governo Temer assumiu com uma determinada expectativa, e após sete meses de gestão a expectativa não se tornou realidade. Sempre se pode dizer que “sete meses é um tempo curto demais” para operar transformações. Mas política é exatamente isso, a urgência da hora. Não se avalia governo só quando ele cumpre todo o seu mandato; a avaliação é constante e imediata, porque feita como parte da vida cotidiana de cada um. Nesta avaliação feita no calor da hora, o governo Temer dá sinais de estar derretendo. Não se trata de um processo irreversível, mas quando isso começa a acontecer a reversão torna-se cada dia mais difícil.

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