EDITORIAL » Nordestinidade em forma de comida

Publicação: 10/12/2016 03:00

Gilberto Freyre distribuindo cocadas, Ascenso Ferreira recitando poesias, Amaury de Medeiros destacando a arquitetura colonial do ponto de vista da higiene, Gouveia de Barros abordando a loucura das secas. Há 90 anos, o Recife sediava um encontro de intelectuais interessados na preservação do que de melhor havia na região, da sua culinária ao casario, passando por uma mobilização para a instalação de uma universidade que tivesse uma cadeira de Estudos Nordestinos e de uma lei em defesa do patrimônio histórico e artístico da Bahia ao Maranhão. O primeiro Congresso Regionalista do Nordeste, cuja abertura ocorreu na noite de 7 de fevereiro de 1926, pretendia não ser bairrista ou separatista. O regionalismo queria era superar o estadualismo, integrando as várias partes do Brasil em um todo.

As discussões do congresso ocorreram no salão de conferências do Departamento de Saúde e Assistência de Pernambuco, com encerramento solene na noite do dia 11. O Diario de Pernambuco deu ampla cobertura ao evento, destacando as palavras de seu antigo colaborador, Gilberto Freyre, deflagrador e principal inspirador desta união nordestina.

Foi neste evento que Gilberto Freyre teria lido o seu trabalho A estética e as tradições da cozinha nordestina, onde fez distribuir as famosas cocadas pernambucanas. A culinária foi um dos momentos mais fortes do encontro. Na noite de 11 de fevereiro, uma legítima janta regional encerrou o primeiro congresso nordestino, com um cardápio de sopa de verduras, peixe de coco, fritada de camarão, capão gordo, abacaxi, doce de caju com queijo do sertão, água de coco, café de Bonito e licor de laranja.

Nesta superedição de fim de semana, Gilberto Freyre volta a figurar no Diario fazendo a defesa da culinária nordestina, mais precisamente a praticada no Sertão. A carne de bode, que sempre abasteceu de proteína os moradores dos lugares mais ermos durante a colonização, ganha mais espaço nos restaurantes da capital pernambucana, reflexo de uma nova significação do que é ser nordestino. Em tempos de globalização, a gastronomia típica está cada vez mais valorizada na indústria do turismo. Mais do que as comidas fartas do litoral e da Zona da Mata, é com as iguarias rústicas do Sertão que o nordestino se identifica como povo. Um povo com muita história.

Mesmo com o maior consumo de alimentos de outras partes do mundo – o que acelera o fim de tradições e instrumentos que podem definir a identidade de um povo – nossos banquetes ainda têm um sabor sem igual.

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