EDITORIAL » Um passo a mais na escalada de instabilidade

Publicação: 08/12/2016 03:00

É tão profunda a crise que estamos vivendo que nenhum fato tem o seu epílogo. Tomemos como exemplo o que aconteceu ontem e anteontem, em relação ao Senado e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em condições normais, numa atmosfera política de absoluta normalidade, seria pouco provável que um juiz da mais alta Corte do país determinasse o afastamento do presidente do Senado. Mas, se determinasse, seria ainda menos provável que o afastado se recusasse a acatar a decisão. E, se recusasse, seria menos provável ainda que tudo acabasse sem que nada acontecesse. No entanto, todos esses fatos pouco prováveis aconteceram.

Ontem, o STF decidiu que Renan Calheiros permanece no cargo. Afasta-se apenas da possibilidade de vir a assumir a Presidência da República, uma vez que é réu numa ação penal. Se o caso acabasse aí, teríamos a enxurrada de críticas provocadas pela decisão, a inevitável viralização do episódio nas redes sociais, a argumentação dos ministros do STF – e a vida seguiria o seu curso rumo à normalidade. Não estamos numa situação de normalidade, porém.

A julgar por analistas que acompanharam de perto os acontecimentos, a decisão do STF visou preservar a governabilidade – um confronto aberto entre Legislativo e Supremo poderia piorar ainda mais a situação em que estamos, talvez levando até a danos irreversíveis.  Uma coisa, porém, é a intenção; outra são as consequências. Qual a sensação que ficará, por exemplo, na cabeça do cidadão comum, daquele que – defendendo esta ou aquela bandeira – tem desde 2013 ido para as ruas demonstrar sua indignação com o estado de coisas?  Como reagirão as forças partidárias em face dos acontecimentos? Que questionamentos surgirão sobre a autoridade do Supremo? Que leitura o país fará dos acontecimentos?

É notório o vácuo de grandes lideranças no país, neste momento. Igualmente notório é o fato de que as decisões e ações do Ministério Público, da Justiça, da Política recebem apoio de uma parcela da sociedade brasileira e desconfiança ou críticas de outra, denotando uma clara divisão no imaginário popular sobre as motivações das decisões e ações. Cada decisão tende a ser encarada com ceticismo e questionamentos – até mesmo, como estamos vendo há meses e tornamos a ver agora, decisões judiciais.

Sem entrar no mérito da decisão, o fato ocorrido ontem é um elemento a mais na escalada de instabilidade que aflige o país.

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