O Brasil venceu

Dulciran Farena *
opiniao.pe@dabr.com.br

Publicação: 06/12/2016 03:00

Em outros artigos, escrevi sobre o sonho brasileiro, em contraposição ao sonho americano (vida confortável em troca de trabalho árduo). O sonho brasileiro é composto de riqueza fácil à custa dos outros (pirâmides financeiras, subsídios, sinecuras…), privilégios (sabe com quem está falando?; impunidade;) e exclusão (condomínios fechados, entradas “social” e de “serviço”, “dependências de empregada”, etc), e só pode ser desfrutado plenamente pelos ricos: somente viver à custa dos outros tem certa universalidade, e mesmo assim, quando não vem do berço, só dura enquanto a pirâmide não desaba ou o dinheiro do parente ou do tesouro público não acaba. Eike Batista era a mais perfeita tradução do sonho brasileiro, e poderia ter sido o nosso Trump ou pelo menos um João Dória; mas perdeu seu momento político, e também seu império, que poderia ter sido salvo, como tantos outros, às custas dos cofres públicos. O americano foi mais pragmático. No Brasil, a vitória de um Trump não surpreenderia: nossas candidaturas são fáceis, sem toda aquela novela de tradição partidária, prévias, primárias, etc., e perfeitas para demagogos e oportunistas. Já nos Estados Unidos, instituições de 240 anos, moldadas para evitar a ascensão de um aventureiro, foram atropeladas por um rolo compressor de demagogia, de fábulas conspiratórias, divulgadas com amplo uso de redes sociais, exploração do medo e de preconceitos, injúrias e ataques pessoais. O homem branco ressentido, saudosista de uma era de ouro que nunca existiu (querem mesmo eles de volta siderúrgicas, fábricas de eletrônicos e carros, em um país que renovou sua economia com empresas de serviços como Apple, Google, etc?) votou por Trump em busca de reviver o sonho americano, mas não foi este sonho que alcançou o poder. Foi o sonho brasileiro, com métodos brasileiros. Não é a ascensão de Hitler que deve servir de paralelo, mas a vitória de Collor de Mello, ainda mais espetacular porque sem o apoio majoritário da mídia que ocorreu no Brasil. Nos anos 90 estudiosos americanos que conheciam a realidade brasileira cunharam o termo “brasilianização”. Com isso, queriam significar a ampliação da pobreza, das desigualdades e da segregação entre os americanos, aproximando o país das condições sociais brasileiras. Mas certamente mesmo em seus maiores delírios pessimistas não imaginavam uma política cada vez mais semelhante à brasileira, dominada pelo casuísmo, demagogia, personalismo e salvacionismo. Até mesmo a inacreditável manipulação de investigações em reta final de campanha aconteceu por lá! (divulgação de investigação do FBI contra Hillary/recusa em investigar a conexão russa na invasão dos e-mails do partido Democrata). O governo Trump tem tudo para aprofundar as divisões e criar um abismo econômico de proporções amazônicas entre os americanos (os negros bem perceberam o risco, votando em massa contra ele), e se ilude quem acha que o presidente-ostentação (tão tristemente próximo de alguns exemplares nacionais) irá ser “domesticado” por burocratas e não cumprir sua plataforma de agressão, violação dos direitos humanos e exclusão. Trump é o sonho brasileiro, devidamente transplantado ao solo da América: rico por herança, cheio de privilégios tributários, preconceituoso, demagogo e ostentador. Um dia nos disseram que o Brasil era o país do futuro. Bem, embora não da forma que imaginávamos, este dia chegou.

* Procurador regional da República

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.