A diferença entre técnica e imitação na arte

Raimundo Carrero *
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Publicação: 05/12/2016 03:00

No sempre exigente campo do estudo da criação artística, sobretudo literária, uma das questões mais graves é fazer o iniciante distinguir entre o que é técnica e o que  é imitação. Até porque há dois campos distintos: o do exercício e o da criação. Pode-se pedir a uma turma que exercite o monólogo interior à Joyce. Isso deve ser feito, rigorosamente, imitando-se o autor irlandês. Trata-se, repito, de imitação, de cópia, porque é um exercício em sala de aula ou em casa. Tudo para o domínio da técnica. Aliás, deve-se, ainda, estudar o monólogo em Joyce - Ulisses, por exemplo - e em Faulkner - O Som e a Fúria - com estruturas diferentes, sobretudo no corte psicológico, no ritmo, no lapsus e no tom, mesmo em português, com os enganos e os equívocos da língua - e em outros autores, inclusive o brasileiro Antran Dourado - em A Barca dos Homens . Em seguida, estuda-se a criação no iniciante. O problema é que o aluno confunde as coisas e simplesmente copia. Essa é a questão e começam as dificuldades. Muitos imitam e acham que criam, que inventam. Não, não é bem assim. É preciso criar a sua própria técnica, os seus próprios movimentos, caminhar em direção do inventivo. O  texto literário tem profundas inquietações psicológicas.

Até bem pouco tempo os professores de Arte de universidades europeias pediam aos alunos que copiassem um quadro de Picasso, de Dali ou de Degas, por exemplo, mesmo em circunstâncias e em escolas tão diferentes, só por exercício ou para fixação, o que não podia significar imitação. Isto é, fazer e esquecer, para apender e para exercitar e para, naturalmente, encontrar seus próprios caminhos. Mesmo que nunca mais use a técnica e esquecer, esquecer, esquecer.

Henry Miller confessa que passou toda a vida tentando imitar Thomas Mann até o dia em que decidiu esquecer tudo, desmontou o ídolo e foi em busca do próprio estilo: "Meti os dois pé na Estética e lancei mão dos meus próprios recursos", escreve. Sim, é verdade. Mas antes de desmontar a Estética e Thomas Mann, precisou  estudar muito, muito. Quando deixou de imitar estava pronto para ser Henry Miller. Até porque para desfazer é preciso fazer.  E ter a humilde de reconhecer o fracasso para atingir a Glória. É preciso construir, para em seguida desconstruir. Na desconstrução encontra-se a individualidade. Na "Iniciação à Estética", Ariano Suassuna adverte que um poeta deve saber como se escreve um soneto - e deve , sobretudo, conhecer a técnica de um soneto -, mesmo que nunca escreva um soneto.

* Escritor e jornalista

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