Quando veremos um Brasil desenvolvido?

Maurício Rands*
opiniao.pe@dabr.com.br

Publicação: 05/12/2016 03:00

O indiano Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia de 1998, em seu Development as Freedom, consolidou a visão de que desenvolvimento não é uma questão de medir PIB ou renda per capita. Mas, principalmente, de viabilizar liberdades substanciais potencializadoras de oportunidades de vida. Ele argumentava que desenvolvimento é a superação da falta de liberdade decorrente de situações de trabalho infantil, fome, pobreza, pouco acesso a serviços públicos de educação, saúde, previdência e segurança, falta de oportunidades econômicas, autoritarismo, falta de transparência, preconceito e intolerância. Nosso Brasil já teve momentos do ‘agora vai’. O nacional- desenvolvimentismo e a industrialização da era Vargas. Os ‘cinquenta anos em cinco’, de JK. O ‘milagre econômico com taxas de crescimento de 10%’. O mais recente, o crescimento com inclusão social do Governo Lula. Mas, como se aqui tivesse encruada uma ‘caveira de burro’, o Brasil parece que nunca vai. Talvez porque em todas essas ondas de otimismo, não tenhamos enfrentado nossos males atávicos. Os vícios herdados do patriarcalismo, da escravidão e do clientelismo. A cultura de que reformas boas são as que recaem sobre os outros. O jeitinho, o apadrinhamento. O pouco compromisso com a eficiência. O desapego à verdade. A sempre pronta disposição a adiar o enfrentamento dos problemas. Talvez por isso os fundamentos de uma república digna desse nome, laica e igualitária, ainda estejam tão longe.

A geração dos meus pais foi uma dessas que viveu a deliciosa sensação de que ‘agora vai’. Sudene, reformas de base, governos da Frente Popular do Recife inovando com um olhar para os mais pobres. Os intelectuais e artistas participando dos movimentos populares. Minha mãe, Célia Coelho, presidia o diretório acadêmico da  Escola de Serviço Social, atuando ao lado de Zuleide Aureliano, Lúcia Freire, Eliane Gitirana, Lourenisa Guerra, Mirtes Chiapetta, Lúcia Melo, Lourdinha Antunes e outros jovens egressos da JUC e JOC engajados no sonho de um país justo e desenvolvido. A diretora da faculdade, Lourdes Moraes. Paulo Freire, um amado mestre. Ele que, ao conviver com suas alunas, não se conteve. ‘Se eu soubesse antes, teria escolhido minha mulher aqui’. Um dos que teve essa sorte foi meu pai, Raimundo Rands Barros, que fez justamente isso. No estágio da faculdade, minha mãe parava na BR-101 e subia o morro para a reunião no Conselho de Moradores, onde fazia sentido exercer a profissão que escolhera. Vinda a ditadura, essas moças de classe média admiradas por Paulo Freire continuaram o trabalho social a que se comprometeram na faculdade. Uma vez, quase foram presas porque levaram aos moradores uma peça de João Cabral de Melo Neto. As casas eram dignas, as pessoas se conheciam, a violência era menor. Uma vez uma das mães visitadas exclamara: ‘lá vêm as moças que são pagas pelo governo para ter pena da gente’. Essas moças eram respeitadas. Nunca viram sequer um enxerimento. Não posso deixar de perguntar se, passadas cinco décadas, esses mesmos bairros hoje são mais desenvolvidos do que então. O mal-estar dos deserdados da globalização não parece maior nesses lugares? Neles a violência, os conflitos de vizinhança, a deterioração dos laços familiares e da convivência não são mais profundos? Os desconfortos da poluição ambiental e sonora não são maiores? As liberdades substanciais de Amartya Sen, para a imensa população das periferias das cidades brasileiras, são mais difundidas? Os eletrodomésticos, o maior acesso à informação nas redes sociais e  aos bens de consumo compensam tanta deterioração de qualidade de vida? Significam que essas pessoas têm mais acesso ao desenvolvimento? Ou a falta de serviços públicos, a violência, a discriminação, o desemprego, sendo maiores do que naquele tempo, permitem concluir que, para eles, o desenvolvimento como liberdade ainda é uma promessa descumprida?

* Maurício Rands, advogado, PhD pela Universidade Oxford, professor de Direito da UFPE

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.