Dom Carlos Coelho e suas lições imperecíveis (II)

Gilvandro Coelho *
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Publicação: 03/12/2016 03:00

Temos fortes razões para dar uma resposta válida às indagações formuladas por muitos, inclusive leitores deste velho Diario de Pernambuco, que acompanharam a trajetória e registraram os principais momentos deste grande Arcebispo de Olinda e Recife que foi Dom Carlos Coelho (1960-1964). Ele foi em toda a sua vida fiel ao lema episcopal que livremente adotou: “In caritate Christi”. E efetivamente viveu na caridade do Cristo. Amou aos irmãos como a si mesmo, doando-se a todos indistintamente. Nunca faltou a alguém com o seu conselho ou com a sua palavra. Não olhava se pobre ou rico, ou por qualquer viés que pudesse configurar discriminação por raça, sexo, credo religioso ou convicção política. Não distinguia entre pessoas. A todos considerava como filhos amados que o Senhor lhe dera para cuidar e conduzi-los à Casa do Pai.

Educador exemplar, foi excelente professor. Como presbítero, exerceu atividades civis. No Governo Osvaldo Trigueiro da Paraíba, foi secretário de Estado da Educação. Jornalista destemido, enfrentou incompreensões. A Imprensa, o jornal que dirigia, foi fechado de maneira brusca e agressiva na Paraíba. Protestou veementemente contra a violência, escrevendo, assim que foi possível,  memorável e forte editorial pugnando já nos anos 40 do século passado pela ampla liberdade de expressão e de imprensa. Esse seu protesto foi ressaltado pelo historiador Apolônio Nóbrega, em seu livro “Dioceses e Bispos do Brasil”.

Na primeira saudação aos diocesanos de Nazaré da Mata tomou como tema a importância da vida cristã. Nessa Carta Pastoral, afirmou textualmente: “Todos os valores positivos da cultura, de temperamentos, de raça, de nação, de classe, tudo quanto representa valor humano, não pode ser estranho ao cristão”. Pode, então, concluir: “Temos de viver a vida de Deus dentro da nossa paisagem psicológica, histórica e social”.

Continuando, acrescentou: “Quando os homens dessacralizam a vida, perdem, como hoje, o sentido do sobrenatural, a presença do cristão no mundo, urge, mais do que nunca. E à Igreja, especificamente destinada à salvação das almas, se abre então o vasto campo da ação social, onde ela deve chegar com as repercussões da sua doutrina e as realizações de sua caridade”.

Historiador arguto, pertenceu ao Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco. Com rara sensibilidade para a preservação do nosso patrimônio cultural, em 1950 instituiu, em Nazaré da Mata, o Museu Diocesano de Arte Sacra. Admirador profundo de Dom Vital, o Bispo mártir de Pernambuco, procurou vivenciar o seu espírito de fidelidade à fé, até os últimos instantes da sua vida, conforme relembra o historiador sacro Pe. Theodoro Huckelmann.

Preocupou-se vivamente com a formação sacerdotal. Cuidou dos Seminários de Olinda e da Várzea e empenhou-se profundamente na construção do Seminário Regional do Nordeste, em Camaragibe/PE. A morte repentina não lhe permitiu concluir a obra, bem como o sonho de plasmar o clero nordestino, concentrando os cursos de filosofia e teologia para lhes dar maior consistência.

Evocando esse admirável pastor, 50 anos depois de sua morte, aprendemos a lição do seu exemplo. Na caridade do Cristo, que foi o seu lema, construamos um mundo menos violento e mais fraterno, para sermos dignos da sua memória.

* Advogado, professor titular de direito da Unicap e ex-Procurador Geral do TCE.

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