Um sonho e os fantasmas de Goya

Plínio Palhano
Artista plástico
pliniopalhano@gmail.com

Publicação: 02/12/2016 03:00

Sonhei que me deitavam em um apoio de madeira, inclinado, preso com argolas que impediam movimentos, as pernas ficavam para baixo. O que compreendi ali é que eu era um sacerdote católico dissidente, e o ambiente do drama, obscuro, típico da Inquisição, cheio de apetrechos de tortura. “Vamos fazer nele o teste da paciência...”, disse um deles. Consistia em injetar uns ferros pontiagudos, como agulhas grotescas, que pudessem penetrar nas veias das pernas e retirar a maior quantidade de sangue para ver a reação da vítima. A sensação é de que passei grande parte da noite observando aquela cena numa circunstância de indefeso e forçado a ter a maior paciência. Creio que sobrevivi ao teste da perversidade daqueles santos monges, dispostos às maiores atrocidades. Parecia tudo tão real que não procurarei interpretar essas cenas.
Então, relembrei o excelente filme Os fantasmas de Goya, produção da Espanha e dos Estados Unidos da América (2007), direção de Milos Forman, uma mistura de ficção e realidade que narra a relação do grande pintor espanhol com as façanhas da Inquisição. Goya não era bem-visto pelos inquisidores, principalmente porque, em suas gravuras críticas, faz referência a monges glutões, sensuais, bruxas, representações de julgamentos da Inquisição, execuções, de forma que aquelas obras foram consideradas, pela elite da Igreja, como blasfêmia e desafio à própria Inquisição. Mas, além de um genial artista, era também hábil nas questões políticas. Em todas as situações difíceis na vida política espanhola, manteve-se quase intocável, principalmente pelas relações que obteve retratando o rei e sua família, a nobreza espanhola e até inquisidores; alguns destes defendiam o pintor quando chegavam denúncias sobre suas obras, etc. E tinha o cargo de Primeiro-pintor da Câmara do Rei, ainda sob o cetro de Carlos IV. Foi preservado também quando da invasão espanhola pelas tropas napoleônicas e atuou como pintor oficial no domínio de José Bonaparte, o irmão mais velho de Napoleão.
Uma das principais personagens do filme é a jovem Inez Bilbatua, filha de um rico judeu. Linda modelo de Goya, representada em retrato, foi denunciada por agentes do Santo Ofício por simplesmente ter sido flagrada negando-se a comer carne de porco em uma taberna com amigos, e por isso a intimaram para se apresentar aos tribunais da Inquisição. E quem a recebeu foi um inquisidor maquiavélico, Irmão Lorenzo. Aí começa a via-crúcis de Inez sob o sadismo do Irmão Lorenzo, que a submeteria a torturas variadas, seduzindo-a sob o sinal da cruz e de rezas, desfrutando de sua beleza. Inez enlouquece e só sai das masmorras da Inquisição com a entrada das forças napoleônicas e a presença de José Bonaparte... Isso já me lembra de outro assunto: as torturas e masmorras dos sistemas totalitários do mundo atual e do século passado, porque as torturas e guerras permanecem, e o mal ainda não foi extirpado no planeta.

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