A literatura como questão

Yuri Pires
Escritor e professor de Língua Portuguesa

Publicação: 01/12/2016 03:00

Em 1936, Walter Benjamin definiu, em seu ensaio O Narrador: “metade da arte narrativa está em evitar explicações.”. Há duas condições para que “evitar explicações” seja factível: deve-se partir de saberes compartilhados entre quem escreve e quem lê; e a memória leitora deve ser capaz de seguir o fio narrativo sem se perder em detalhes já descritos. Duas condições que encontram-se em xeque.
Desde a escolha de uma palavra até a forma de narrar os diálogos, há sempre uma mediação. Escrever, por exemplo, uma novela ambientada em Olinda, no ano de 1537, e utilizar nos diálogos vocabulário e sintaxe da língua portuguesa quinhentista requererá, durante a leitura, um conhecimento linguístico pouco acessível e muito específico. Evidentemente, é possível escolher outro caminho, mas toda escolha é concessão e exclusão.
Se, no início do século passado, Benjamin alertava para a diminuição do alcance de nossa memória e a consequente perda de capacidade de contar estórias, a partir do advento da guerra moderna e das novas tecnologias da informação da época (o jornal, o romance moderno, a short-story etc.), calcule-se a ampliação deste alerta no momento atual. Diz Betsy Sparrow, coautora do artigo O Efeito Google na memória, publicado na revista estadunidense Science, que não é possível certificar prejuízo da capacidade de memorização, mas aponta que o cérebro acostumado ao Google cansa mais rapidamente ao buscar informações obtidas em um passado recente, habilidade fundamental para ler e refletir sobre uma narrativa longa como Grande sertão veredas, de Guimarães Rosa, ou Cem anos de solidão, de García Marquez.
De modo que o narrador que aconselha através da memória coletiva disposta em meio aos vãos e desvãos da narrativa, torna-se obsoleto. O leitor ou leitora tem acesso fácil a conselhos sobre traição, vingança, dor, saudade ou amor, basta que procure em buscadores, e, para isso, prescinde do narrador.
Acontece que essa memória é fundamental na construção da identidade coletiva. “Você não só precisa fazer isso [criar uma identidade que se diferencie de sua comunidade], mas você tem que passar toda a sua vida redefinindo a sua identidade.” afirma o filósofo polonês Zygmunt Bauman ao ser questionado sobre a busca por identidade no mundo líquido, onde nem a memória é feita para durar. Não é raro encontrar netos de imigrantes – nordestinos fugindo da seca ou judeus fugindo de Auschwitz – que não apenas desconhecem a história de migração de suas famílias como lhe são completamente indiferentes, por exemplo.  
O desafio reside na figura do narrador apontada por Benjamin. Narrador que pode contar não apenas de sua experiência, mas também da experiência de outros, e “sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o provérbio, mas para muitos casos, como o sábio”. A questão é: faz sentido aconselhar quando a memória e a identidade reconstroem-se hora a hora e a experiência de ontem sequer foi anotada? E se não aconselha, que narrador é esse que só conta a sua história e a de mais ninguém?
É o que buscarei discutir no próximo artigo.

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