Passear com as palavras

Luciana Grassano Melo
Professora de Direito da UFPE

Publicação: 01/12/2016 03:00

Gosto de contar histórias como quem faz uma fotografia, e nela coloca a sua alma para interpretar a realidade. Recentemente escutei de alguém que gosta de como escrevo, que eu passeio com as palavras. Acho que deve ser mesmo esse o meu sentido de escrever: compartilhar momentos da vida que desejo contar porque representam sentimentos, percepções e observações sobre a realidade que sinto e vejo no mundo que me rodeia.
As fotografias me encantam, em especial as que expressam todos os aspectos da experiência humana e toda a vida que está em seus extremos. As fotografias que gritam contra a opressão e a desigualdade, mas que representam também a esperança de dar voz aos que não são escutados, como também aquelas que revelam a vida em seus melhores momentos de amor, poesia, liberdade, esperança e oportunidade.
Quando escutei do leitor que eu passeio com as palavras, a lembrança que tive não foi de um romance ou de uma poesia, mas de uma exposição de fotografias que passou por mim numa caminhada que fiz no Parque Chapultepec, na Cidade do México.
Ninguém precisava ir ao museu para conhecer a história da gente mexicana, porque ela estava contada em grandes painéis de fotografias fixados ao longo da calçada externa do imenso parque. E à medida que eu avançava no passeio, me enchia do espírito daquela gente que saltava ao meu encontro das fotografias que me acompanhavam na caminhada.
Fizeram, inclusive, um concurso nacional, e no mesmo passeio do enorme Chapultepec expuseram as fotografias vencedoras do concurso que melhor expressavam a riqueza daquela terra e da sua humanidade.
Achei aquela uma viagem extraordinária. E me cativou muito esse aspecto de a arte, mesmo nos museus, não estar sempre dentro das salas, mas aberta aos pátios, internos e externos, em seus corredores pintados com enormes painéis assinados, entre outros, por Diego Rivera.
 Na visita que fiz ao Palácio Nacional, dei de cara com outro projeto muito interessante. Chamaram-no de “Arte para la nación”, e merece ser copiado. Parece que o México foi um país pioneiro em oferecer aos seus mais renomados artistas plásticos a alternativa de pagar seus impostos com suas telas e esculturas. E esse enorme acervo de valiosas obras de arte contemporâneas é exposto para visitação em espaços públicos importantes das mais diversas cidades mexicanas.
A força da cultura se expressa também nos sabores apimentados e na tequila que, quando usada para fazer a “marguerita”, não fossem o sal e o cointreau adicionados, se assemelharia à nossa caipirinha. Chamou-me atenção também a vaidade dos homens com seus sapatos. Encontrei inúmeros engraxates espalhados pelas zonas mais pobres e mais ricas da cidade. Reparei que estavam sempre trabalhando, muito ocupados.

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