Um Brasil diferente

José Luiz Delgado
Professor de direito da UFPE

Publicação: 30/11/2016 03:00

O cenário era inimaginável. Simplesmente impossível de se conceber dez, vinte anos atrás. Estamos diante de um outro Brasil, um outro mundo, um universo completamente diferente, um novo país.
Grande, poderoso, político, rico (não o de dinheiro obtido licitamente, mas por corrupção), ser processado, ser denunciado, ser preso, ser condenado, neste país do “sabe com quem está falando?”, neste país de castas, talvez mais rígidas e mais afastadas do que na Índia, castas que separam radicalmente o país da elite branca, formada, bem nascida, com boa situação financeira, apartando-o do outro país, o país dos pequeninos e dos à margem, os brasileiros comuns, negros, amarelos, mulatos, morenos, brancos humildes, acostumados ao trabalho, ao sofrimento e à exclusão? O Brasil oficial e o Brasil real, da aguda observação de Machado de Assis, da qual tanto gostava Ariano Suassuna. O primeiro, o Brasil acalentado na irresponsabilidade e na impunidade; o outro, o Brasil acostumado à perseguição e à marginalidade.
É claro que corrupção sempre houve, e, provavelmente, nalguma medida, sempre haverá. Mas nunca houve (“nunca antes na história deste País”...) corrupção igual, de tal proporção, em tal magnitude, como projeto de governo, sistemática, abrangente, total. Ora as corrupções de que foram acusadas as administrações de Getúlio ou de Juscelino... – piadas, puras piadas diante do descalabro dantesco atual. Em níveis astronômicos,  a corrupção servia agora para financiar um projeto de poder e, claro, como custo da operação, beneficiava alguns dos novos poderosos, os mentores e os intermediários. Deleitavam-se todos com mesadas fabulosas, tranquilíssimos, certos da mais total impunidade.
E, no entanto, muitos deles (não todos, ainda) estão processados, e até condenados e presos. Quase não se acredita. É mesmo possível que isto esteja acontecendo, não na Inglaterra ou nos Estados Unidos, mas aqui, no Brasil, entre nós? Absolutamente genial! Pode ser que um novo País esteja nascendo – um País em que o governante se saiba tão somente um servidor do povo, o primeiro dos servidores; e tenha absoluto zelo pelo dinheiro público (como, aliás, Getúlio tinha). Um país em que políticos saiam do poder, como muitos saíram antigamente, sem fartos recursos, até apertados, mais empobrecidos do que quando entraram. De numerosos exemplos dessa dignidade a história brasileira está cheia! Quando um ilustre empresário foi propor a Floriano uma sociedade que seria altamente vantajosa para o Presidente, recebeu a resposta austera de que viesse repetir a oferta quando aquele deixasse a presidência... Carlos de Lima Cavalcanti, outrora revolucionário e poderoso interventor e governador de Pernambuco,  a última viagem que fez do Rio para o Recife foi, por falta de recursos... de ônibus. Voltaremos a esses tempos e a esses homens?

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