Êi, não dá para dizer adeus*

Jacques Ribemboim
Escritor

Publicação: 29/11/2016 03:00

O paraíso grego no mar Egeu e a loura norueguesa teriam que esperar. No Yom Kipur de 1973, Israel fora invadido pelos exércitos da Síria e do Egito, no momento em que os soldados estavam nas sinagogas rezando e cumprindo o jejum. O jovem músico não hesitou em cancelar seus shows e rumar direto a Tel Aviv, para cantar entre as tropas em pleno front. Leonard Cohen, músico e escritor canadense, falecido agora em novembro, aos oitenta e dois anos.
Seu estilo down, sofisticado e intimista, fizeram-no associado a nomes como Bob Dylan, Neil Diamond, Billy Joel (dos primeiros anos) e Lou Reed, todos também de origem judaica. A voz grave e roufenha, que se acentuaria com o passar da idade, conferiram-lhe um estilo único, “um canto esquisitão” - como noticiou o Diario de Pernambuco no lançamento do CD Cohen Live, nos anos noventa.
Dele ouvi falar tardiamente, na época em que morei em Londres e onde dez dentre dez frequentadores do Camden's compravam seus discos compulsivamente. Mas confesso que desconhecia sua popularidade aqui no Brasil, acentuada nos últimos tempos pela inclusão de Hallelluja na abertura do seriado Justiça, da Rede Globo.
Vá lá que em Cracóvia se organize anualmente o Festival Leonard Cohen. Afinal, de lá vieram seus avós poloneses. Mas, aqui em Pernambuco, foi surpresa receber tantas mensagens de whatsapp lamentando sua passagem. O alcance de suas músicas foi bem maior do que ele próprio poderia supor, sempre avesso aos modismos e à grande mídia.
Em sua biografia, impossível ignorar o papel das musas. Leonard era um romântico agudo e instável, com dificuldades para um relacionamento duradouro. Teve muitas namoradas - beldades, no chavão chauvinista - mas nunca se fazendo de playboy conquistador. Na verdade, parecia elevar as mulheres ao patamar da deidade. Foi assim em alguns de seus maiores sucessos musicais, como em Suzanne, que por sinal era apenas uma amiga. E foi assim com So long, Marianne, a loura do paraíso grego. E por coincidência de nomes, uniu-se a uma segunda Suzanne, Elrod, com quem teve dois filhos e que também lhe inspiraria canções famosas, dentre elas, My gipsy wife, lançada no momento da separação do casal. A modelo Nico (do círculo de Andy Warhol), Janis Joplin, a atriz Rebecca de Mornay (A mão que balança o berço) e a cantora Joni Mitchell estavam neste time de escol.
A história de Leonard Cohen conta muito da história da arte no século 20 e da luta de poucos contra a vulgaridade que, afinal, vencerá. Em sua derradeira música, You want it darker, um surpreendente desfecho em hebraico, cantado pelo tenor da sinagoga de Montreal, cidade onde nasceu, Hineni, my Lord, I'm ready! (Eis-me aqui, Senhor, estou pronto!). Deixou o mundo com soberba elegância.
*Título de uma das músicas do cantor, Hey, that's no way to say good bye, de 1968.

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