Orfãs de Esperança

Regina Célia Barbosa

Publicação: 27/11/2016 03:00

O que há de comum entre uma briga na escola e um crime de sangue, entre um estupro e um ataque a um banco, entre um conflito étnico e a violência conjugal? Esta é uma das várias interrogações metodológicas apresentadas pela Drª Véronique Durand, em seu livro Órfãs de Esperança. Interrogações metodológicas as quais em meio a sua intuição feminina e convicções feministas permitem que esta antropóloga francesa nos apresente em sua obra o resultado das suas investigações desdobradas em 20 anos sobre as diversas violências praticadas contra a mulher em cinco países - Argélia, Brasil, Bangladesh, Camboja e França.
Em suas pesquisas a Drª Véronique Durand ao constatar em sua peregrinação científica a afirmação feita pelo filósofo Yves Michaud de que a violência está em toda parte e não se encontra em lugar nenhum revela que em toda a parte nos cinco países pesquisados, a presença da violência anunciava uma orfandade que se confirma quando o silêncio da vítima (em razão da cultura do patriarcado), se instala; o poder público se omite e a ética da tolerância à violência é compartilhada pela cultura da impunidade. É nesta perspectiva que a Drª Véronique Durand destaca as violências plurais cujo enfrentamento exige várias abordagens múltiplas em torno do fenômeno cuja análise sugerida refere-se à mulher em situação de violência, como também aos homens autores da violência; ambos marcados pelas ordens da cultura religiosa, política, ideológica entre outros. E, é neste propósito que Véronique Durand lança o convite aos  sociólogos, psicólogos, filósofos, criminologistas, historiadores, antropólogos, médicos, trabalhadores sociais, juristas, policiais, a sociedade civil para analisar a violência e tentar diminuí-la através da sua mais nova contribuição científica, Órfãs de Esperança.
O prefácio escrito por Maria da Penha Maia Fernandes expressa a gratidão da “Mulher da Lei” à Drª Véronique Durand que, ao concluir a obra, revelou: “Penha, este livro é um presente para você pelos 10 anos da Lei e, por você ter sobrevivido e poder lutar. Você pode contar comigo pois estarei, entre muitas mulheres, lutando continuamente por esta causa com você e com todas as mulheres brasileiras”.
Ao concluir a leitura do texto de Véronique, Maria da Penha prefacia: “Sem dúvida, o trabalho dessa antropóloga francesa, que me trouxe o grande desafio de prefaciar o seu livro Órfãs de Esperança é singular não pelo simples fato de afirmar que a violência contra as mulheres é uma violação dos Direitos Humanos; mas por provocar reflexões sobre o que há de específico e o que há de universal na prática da violência não contra a mulher, mas contra as mulheres.
O presente à Maria da Penha está sendo compartilhado para todas e todos nós que não mais aceitamos a “banalidade do mal” que se acomoda na expressão “cultura da violência”. Violência é crime! Um crime, em que Véronique Durand afirma: “(...) se nutre do segredo e do silêncio. Onde as palavras não têm espaço e cujas pancadas, os gritos, os pontapés são um outro meio de comunicação”.
Órfãs de Esperança é um lançamento da Editora Cubzac, Consulado Francês e instituições parceiras. O evento ocorrerá hoje, no Cinema do Museu da Fundaj, em Casa Forte, às 16 horas.

* Vice-presidente do Instituto Maria da Penha

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