(Des) Informação

Maurício Rands

Publicação: 27/11/2016 03:00

Houve um tempo em que o conhecimento circulava somente entre poucos. Na Grécia e em Roma, entre os patrícios. No Medievo, apenas padres, nobres e protegidos tinham acesso aos manuscritos em latim culto. Depois, o latim vulgar estendeu um pouco a compreensão dos textos sagrados ou clássicos. Em 1439, a invenção da imprensa, por Gutenberg, tornou possível a Reforma Protestante e o Iluminismo, que  revolucionaram o acesso à cultura e à informação. O livro, o jornal e o panfleto permitiram que todos desfrutassem dos prazeres e dos poderes do conhecimento escrito. Mesmo que em tese, porque o mundo sempre impôs fardos quotidianos e tempos livres diferenciados, a depender de onde nascemos e em que papel social somos enquadrados. As oportunidades de leitura e estudo nunca foram iguais. Até hoje, infelizmente, não são.
Até a era da internet, algumas poucas elites selecionavam o que ficaria acessível ao grande público. A universidade, os intelectuais, as igrejas, as instituições e os partidos. Com a rede, a informação passou a ficar diretamente disponível a todos. Sem intermediação. Pelo menos em princípio. Para o bem e para o mal. Para o bem, pelo imenso potencial de democratização do conhecimento. E pelo empoderamento de pessoas que antes a ele não tinham acesso.
Mas nem tudo são flores. Como demonstra o recente livro de Walter Quattrociocchi e Antonella Vicinici, que acaba de ser publicado pela Franco Angeli. A pesquisa deles surgiu por acaso. Para ridicularizar o movimento populista de direita de Beppe Grillo, do M5S, eles começaram a fazer posts inventados e exagerados. Aí viram que muita gente acreditava. Da brincadeira, lançaram-se a pesquisar os motivos porque tanta gente que se acha instruída acredita em tanta besteira que lê nas redes sociais. Para eles, a rede é dividida em grupos polarizados. Que falam para si próprios. Os seres humanos tendem a buscar informações que coincidem com as suas. Isso reforça sua autoestima e convicção em suas crenças. Tendemos a nos circundar de pessoas que pensam como nós. É uma espécie de reforço da ideia de pertencimento, de que não estamos sozinhos. E, quando nos comunicamos nessas redes ou tribos a que pertencemos, tendemos a reforçar nossa ‘imagem virtual’, inclusive em sentido estratégico. Tendemos a nos apresentar como ‘os coerentes’ , os ‘consequentes’,  ‘os mais puros’, pelo menos aos olhos dos membros daquela tribo. O resultado é que se acaba por propagar ou reproduzir sempre as mesmas convicções. Às vezes, às custas da verdade e dos fatos. Não é por outra razão, que o prestigioso Oxford Dictionary  acaba de eleger ‘a palavra do ano’: a ‘pós-verdade’. Ou seja, o conceito de que os fatos e a verdade não são o essencial. E, sim, o sentimento, a aparência, a narrativa, a opinião ou o imaginário, geralmente interessados. Também não surpreende que o World Economic Forum tenha considerado a desinformação digital de massa entre os perigos globais da nossa era.
Cada um de nós, hoje, está conectado em vários grupos de WhatsApp, Face e Instagram. Basta passar o dedo pela telinha para encontrar muitas dessas postagens fantasiosas. ‘O RioMar está afundando’. ‘Tem um arrastão, agorinha, na Agamenon Magalhães e as polícias decretaram greve geral’. ‘Invasão do site do Detran. Não pague o IPVA de janeiro’. ‘Gilberto Gil morreu’. ‘João Paulo II foi retirado intacto do túmulo, como se estivesse dormindo. Um milagre!’.
O antídoto está em nós mesmos. Desenvolver o espírito crítico e a capacidade de raciocinar independentemente da tribo com a qual nos identificamos (e à qual estamos conectados). Buscar a boa informação, em veículos com credibilidade e história.

* PhD pela Universidade de
Oxford, advogado e professor
de Direito da UFPE

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