EDITORIAL » Como o país suporta tantas crises?

Publicação: 26/11/2016 03:00

Qual o país que aguenta dois anos seguidos de crise política e econômica, resvalando em alguns momentos até para o risco de crise institucional?  O Brasil está sendo forçado a aguentar. Ontem o ministro Geddel Vieira Lima, da Secretaria do Governo Michel Temer,  pediu demissão, após ter seu nome envolvido em um escândalo no qual ele teria pressionado o então ministro da Cultura para liberar uma obra em Salvador.  Temer está a apenas seis meses no poder, mas o seu governo já tem seis ministros afastados, o que dá a assustadora marca de um por mês. Antes de Geddel, o próprio ministro que disse ter sido pressionado, Marcelo Calero, pedira demissão.
O governo anterior, de Dilma Rousseff, atravessou 17 meses também sob crise, até ocorrer o impeachment. Temos políticos e empresários na cadeia e investigações em curso que podem levar a novas prisões, no âmbito sobretudo da Operação Lava-Jato. Um país que não tivesse a solidez política, institucional e econômica do Brasil estaria, a essa altura, derretendo e avançando a passos largos rumo ao precipício. Mas o Brasil está suportando.
Se nós retrocedermos a análise para 2013, quando houve as grandes manifestações de rua, veremos que a crise é até mais longa do que calculamos. Na época a classe política sentiu o tamanho da indignação popular, e em um primeiro momento esboçou uma resposta no sentido de procurar atender ao que as ruas estavam reivindicando. O alvo daquelas manifestações era difuso, porém uma característica sempre esteve bem clara: a população estava demonstrando sua impaciência com as ações dos políticos.  Mais do que impaciência: naqueles protestos, era como se os manifestantes estivessem dizendo “olha, nós estamos fartos de tudo isso. Chega!”.
Agora, no final de 2016, vemos novamente exemplos de políticos que agem como se não tivessem contas a prestar ao povo brasileiro e ao próprio país.  Isso tanto no Executivo quanto no Legislativo. Os que agem assim acreditam que o poder lhes protegerá de qualquer movimento contrário. Se já era um raciocínio temerário em outra época, agora é muito mais. Os sinais de intolerância já estão por toda parte.
O Brasil tem solidez política, institucional e econômica. Mas, mesmo com tais características, nenhum país consegue avançar submerso em crises constantes e intermináveis. É o tipo de situação em que todos saem perdendo, mesmo aqueles que acham que estão ganhando.

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