Trump - Freud explica

Fernando Araújo
Advogado e professor de Direito

Publicação: 22/11/2016 03:00

Ouvi de um jornalista francês a afirmação de que o presidente americano  eleito é um autêntico narciso, pois dedica toda sua energia a si próprio, perdendo contato com o mundo em sua volta. Fez campanha prometendo menoscabar os paradigmas do mundo civilizado: romper com o acordo internacional do clima; trazer de volta as empresas nacionais com filiais ou sedes em outros países; estimular apenas o mercado interno, com o consumo individualista e abundante. Ou seja, seus conterrâneos vão voltar a vivenciar a surrada máxima: “consumo, logo existo”. E mais: prometeu deportar mais de 11 milhões de migrantes e erguer um enorme muro ao longo da fronteira com o México. Tudo isso é grave, na medida em que ameaça o pacto global pelo meio ambiente. Faz periclitar a sustentabilidade, que é base do humanismo solidarista, até agora em passos longos para conquistar a filosofia política e a teoria do Estado. Medidas que, como sabemos, são fundamentais para melhorar a qualidade de vida da população mundial, diminuindo as desigualdades sociais, ampliando os direitos e garantindo o acesso aos serviços como educação e saúde. É dessa forma que as pessoas podem chegar à cidadania plena, dentro da perspectiva de desenvolvimento sustentável que é sinônimo de responsabilidade social. Numa palavra: não deve existir crescimento econômico sem progresso social e sem cuidados ambientais. No seu populismo conservador, Donald despertou no americano médio uma atitude de desconfiança para com o migrante, particularmente aquele com potencial de interferir em sua vida, tomar seu emprego. Daí ter adicionado a isso a ideia da muralha, valendo-se de um velho expediente de antigos governantes, como ocorreu na China, antes de Cristo, em Constantinopla, Tróia, entre outras cidades. Muro dá sensação de segurança. Nesse ponto, aliás, até mesmo no Brasil estamos no tempo dos muros altos, em casas, edifícios, fábricas etc. Freud diz que somos guiados mais pelo inconsciente do que pelo consciente. E Jung afirma que esse inconsciente pode ser coletivo, quando partilhado por imagens chamadas arquétipos. Ora, diante de cidades como Detroit, antigo símbolo do dinamismo industrial americano, não foi difícil estimular a massa de desempregados a optar por ele. Claro que o produto final das promessas não vai ser entregue. A volta do “sonho” americano de vida pode levar milhões a um grande pesadelo. E o preço por essa era nacionalista, concorrente  e xenófoba pode sair caro demais para a humanidade. Que a união dos governantes de boa vontade do mundo impeça mais essa marcha da insensatez. 

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