Boletim Sentimental da Guerra no Recife

Marly Mota
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 22/11/2016 03:00

No dia 22 de novembro, há 32 anos, Mauro Mota nos deixou aos 73 anos. Volto a louvar o seu poema acima intitulado. Em outro novembro, mais distante, época da 2ª Guerra Mundial, no ano de 1945, eu adolescente, com a minha família nos mudamos de Bom Jardim para o Recife, terceira capital e terceiro porto do Brasil.
Gilberto Freyre, tomando-me por parceira do seu livro, O Recife. Sim! “Recife Não, edição Arquimedes, São Paulo, 1967; costumava me chamar colega, por ser eu a ilustradora. Escreveu o amigo: (...) “O Recife é uma cidade recatada; Não se exibe. Não se mostra. Retrai-se. Esconde-se até dos olhos dos estranhos”. Mesmo assim, apesar das coloridas lembranças da minha cidade, entre serras que se aconchegam umas às outras, guardando os meus sonhos; aos poucos fui descobrindo o Recife. Belas igrejas com torres sineiras, levando as chamadas sonoras para longe; os bondes enfeitando a paisagem; ruas com muros verdes de heras; o cinema única diversão. Frank Sinatra, chegando às telas nos fazendo acreditar que cantava para nós mocinhas e para nossos devaneios. Eu, adolescente, com o meu pai acompanhamos os distantes combates que chegavam, pelo telégrafo submarino, às páginas do Diario de Pernambuco, o mais antigo em circulação.
A guerra chegara até nós quando o irmão caçula do meu pai, tio Zezito, foi convocado para as fileiras da Força Expedicionária Brasileira. Chegara a vestir a farda verde-oliva, mas fora dispensado por ser daltônico. No Nordeste brasileiro, ponto mais oriental do continente, o exército americano instalara em Pernambuco uma de suas bases na despovoada praia de Piedade: Os Fuzileiros Navais prontos a conquistar meninas de 15 e 20 anos, com promessas e presentes. Com eles, o modismos da terra de “Tio Sam”: Óculos Ray Ban, cigarros Lucky Strike, Chocolates, Coca-Cola; o Cassino na praia do Pina, o Town Club, o Holiday Dance, nas suas bases da Zona Sul. O poeta Mauro Mota retratou esse momento, com história e poesia no notável Boletim Sentimental da Guerra no Recife, publicado no Diario de Pernambuco, dedicado ao seu amigo jornalista Paulo do Couto Malta.
O grande crítico literário Cavalcanti Proença escreveu: (...) “Terminamos este estudo fazendo-o também boletim sentimental, homenageando um dos mais importantes poemas já inscrito em língua portuguesa: O Boletim Sentimental da Guerra no Recife”.
Recebi um ano após o falecimento de Mauro Mota, em 10/09/84, da instituição do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, o discurso pronunciado pelo ministro interino da Justiça, José Paulo Cavalcanti Filho: (...) O Conselho Nacional do Direito da Mulher que agora se empossa, terá como objetivo garantia a mais ampla participação da mulher na vida do país; É como tarefa a busca de igualdade de deveres entre todos os brasileiros. “Teces toalhas de mesa / e a tua mesa vazia”. O jurista amigo, meu confrade na APL faz referência ao poema de Mauro Mota, A Tecelã, publicado pelo Gráfico Amador, ilustrado pelo admirado pintor Reynaldo Fonseca.

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