O Brasil ainda é racista: chega!

Maurício Rands
Advogado, PhD pela Universidade Oxford, professor de Direito da UFPE

Publicação: 21/11/2016 03:00

A Superedição do Diario, de ontem, trouxe no Caderno 4 um especial da consciência negra. Retratou o racismo tão arraigado entre nós. Navegou sobre o aumento do número de empresários negros e suas dificuldades. Levantou a baixa representatividade dos negros nos cargos públicos eletivos. Reportou a resistência das religiões afrodescendentes, como Candomblé, Umbanda e Jurema, à intolerância religiosa. Mostrou como a burocracia atrasa a regularização das terras quilombolas. Apresentou  depoimentos de pessoas que sofreram o preconceito e o superaram.
O racismo às vezes é silencioso e invisível. Idênticos trabalhos são remunerados diferentemente. Ainda há quem procure preencher as vagas em uma empresa com  ‘pessoas de boa aparência’, enquadradas no estereótipo do colonizador europeu. As oportunidades ainda são menores para quem tem a pele escura. Por tudo isso, entidades como a Associação Brasileira de Recursos Humanos afirmam que o racismo ainda é uma realidade dentro das organizações.
Na verdade a atitude de preconceito racial diminui aquele que o tem. Revela um nível ainda inferior de desenvolvimento humano. Mas quem sofre é aquele contra quem o preconceito é dirigido. Trata-se de atitudes e culturas enraizadas no inconsciente individual e coletivo dos brasileiros. Porque, como vaticinou Joaquim Nabuco, difícil é superar a obra da escravidão. O regime da colonização das grandes plantações de algodão, açúcar e café à base da mão-de-obra escrava africana deixou marcas que foram mais fortes do que a propensão do português à miscigenação. A civilização brasileira dos trópicos, tão bem analisada por Gilberto Freyre em sua mistura de peles, falas, músicas, danças, religiões e comidas, até hoje não superou a marca do preconceito contra o afrodescendente. Há quem argumente que no Brasil haveria mais preconceito social ou de classe do que de raça. Lenda. Basta ver o vídeo postado pelo Governo do Paraná  (www.hypeness.com.br/2016/11/video-impactante-escancara-o-racismo-institucional), que teve 13 milhões de views, com pessoas entrevistadas por um fictício departamento de pessoal. E que foi apresentado no Jornal Nacional da Globo. Elas foram submetidas às imagens de pessoas de pele branca e negra exercendo idênticas tarefas. Instadas a interpretar os papeis por elas exercidos, desnudaram o preconceito. O homem branco correndo seria alguém atrasado para o trabalho. O negro, fugindo da polícia, ladrão. A moça branca manuseando roupas seria uma design de moda. A negra, vendedora da loja, costureira. A mulher branca estaria limpando a casa dela. A negra seria uma diarista, empregada doméstica. O homem branco de paletó seria um executivo. O negro, motorista, segurança de shopping. A branca seria grafiteira, artista. A negra, pichadora.
Diante da persistência do preconceito difuso nas expressões, piadas e atitudes, a civilização brasileira começa a se mover para superar o racismo. Estão sendo adotadas ações afirmativas, que precisam focar cada vez mais nas oportunidades educacionais e de emprego. Mas também no empreendedorismo, como na Califórnia. Lá existem incentivos para que os poderes públicos contratem empresas cujos acionistas controladores sejam afrodescendentes. A superação dessa marca profunda da cultura brasileira não é coisa fácil. Mas o início é o diagnóstico correto. Reconhecer que somos um país racista é, portanto, um primeiro passo. Ao qual devem se seguir políticas públicas de conteúdo repressivo aos atos de racismo, mas também de conteúdo promocional, como as ações afirmativas. Para aprimorar a civilização brasileira, teremos que mudar nossas atitudes. A mudança interior de cada um de nós  deve se alimentar das iniciativas das instituições e dos movimentos sociais de consciência negra. Como mostrou o Diario do fim-de-semana, já começa a diminuir a incidência do racismo. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer. Como podemos ser uma nação com preconceito contra a maioria de nós mesmos?

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